30 novembro, 2013

Poesia (uma por dia) - 55

"30 de Novembro de 1935, morre em Lisboa o grande poeta, filósofo e escritor português, Fernando Pessoa. No corrente ano de 2013, creio que em Maio, foram descobertos manuscritos do poeta até agora inéditos. O soneto «Alma de Côrno», que hoje se publica na efeméride, encontrava-se entre esses escritos desconhecidos. Ainda bem que lá estava, é de facto inédito o soneto métrico. Fernando Pessoa, um poeta genial!"
Escreveu o "Poeta anarquista"
ALMA DE CÔRNO

Alma de côrno – isto é, dura como isso;
Cara que nem servia para rabo;
Idéas e intenções taes que o diabo
As recusou a ter a seu serviço –

Ó lama feita vida! ó trampa em viço!
Se é p’ra ti todo o insulto cheira a gabo
– Ó do Hindustão da sordidez nababo!
Universal e essencial enguiço!

De ti se suja a imaginação
Ao querer descrever-te em verso. Tu
Fazes dôr de barriga á inspiração.

Quér faças bem ou mal, hyper-sabujo,
Tu fazes sempre mal. És como um cú,
Que ainda que esteja limpo é sempre sujo.

Fernando Pessoa

Nota: reprodução do poema respeitando a grafia original do fac-símile.

29 novembro, 2013

"The Postman", o filme que converti em metáfora (em Março de 2010)

(reposição de um post com mais de três anos, e com a preocupação centrada nos Estaleiros)


...um libelo contra a sanha privatizadora, inscrita desde o PEC

Estava meio deprimido. A semana não tinha corrido nada bem. Depois das minhas incursões pelas incapacidades educativas e de meia dúzia de propostas a que ninguém ligou, só fiz asneiras: Perdi-me no Chiado e escondi-me dos poetas que por lá estão; troquei as voltas àquela amiga que me oferece flores, cores, sorrisos e poemas (desejei-lhe feliz regresso quando ela ainda se preparava para partir); esqueci a quantas andava e perdi o dia de anos da minha mais recente seguidora; fui avinagrar amigos de infância, etc., etc., etc. Estava assim, zangado comigo mesmo e com o mundo, quando surge o toque salvador. Atendo:
Eu - Sim? (digo em voz mais seca do que me estava a alma)
Uma voz - Rogério? (ouvi, do outro lado, aquela voz bem conhecida que teve o condão de me animar a alma)
Eu - Olá, que bom ouvir-te (disse, quase a confessar-lhe o meu estado)
A tal voz - Rogério, lembras-te daquele meu filme onde eu desempenhava o papel de falso carteiro, perito em obras de Shakespeare, numa apocalíptica terra devastada e onde acabo por descobrir o poder de inspirar a esperança e fazer crer ao povo, perseguido pela tirania, que o Governo do meu país tinha sobrevivido à hecatombe?
Eu - Claro, é um dos meus épicos mais queridos! Aquele em que a juventude assume os correios, como símbolo do Estado e como bandeira da resistência e cidadania, mobiliza o povo contra os opressores. Belo filme, onde te vejo liderar uma heróica rebelião para repor a paz e a justiça
Voz – Esse mesmo. Quero que tu me escrevas umas notas, tipo sinopse, para uma nova versão. O título provisório é “The portuguese postman”, mas estou receptivo às tuas sugestões. Podes?
Eu – Yeessss! (exclamei, com uma alma nova em folha, sem os anteriores vestígios de ferrugem)
… e lá combinamos data e local para o bate-papo em torno do meu argumento.

NOTA (de hoje): Kevin Costner tem estado mais atento à nossa realidade que a maior parte dos blogues que estou a seguir. Nunca mais me ligou. Talvez ache que o tal argumento que eu  iria escrever se parecia demasiado com o filme que vos foi dado ver...
Reedição desta versão

28 novembro, 2013

Diário de um eleito - (2)


A assembleia fora convocada como não podia ser. Tudo ao contrário do que devia ser: o artigo evocado para a sessão fora revogado; a autarquia referida, nem existia; o que era matéria extraordinária foi tratada em convocatória para sessão ordinária; a ordem de trabalhos estava errada. Além de tudo isso, foram produzidas convocatória diferentes e os editais colocados em locais não preenchendo os habituais. De quase tudo, tive o cuidado de avisar a presidente, com a antecipação que foi possível. Quando a avisei, riu-se dela própria e comentou: "Vai ser uma grande trapalhada". E foi.

No dia aprazado (ontem) os eleitos lá estavam. Eles e eu entalados num pequeno espaço e o público dividido entre a  sala e a rua. Rua que era, simbolicamente, uma espécie de preceito, estilo "não-vos-quero-cá-dentro-porque-não-nos-dá-jeito", ou seja, a "populaça" foi metida numa espécie de corredor num espaço que já fora o mercado. Falando em simbolismo, a autarquia reunia no cemitério a que as grandes superfícies reduziram o comércio tradicional. O inicio da sessão foi o que se esperava: uma grande trapalhada. E o público não perdoou.

Depois da desordem do dia e antes da ordem do dia, apresentámos duas moções: uma contra a agregação das freguesias (1), em texto longo e preciso; outra contra o empobrecimento e reclamando a Cavaco que faça o que é devido (2). Ambas aprovadas, apenas com votos contra das forças políticas que sustentam o processo de desastre em curso mas sem que não houvessem esforços para manter unidas essas hostes, o que a custo foi conseguido.

O detalhe disto, assim escrito, será complementado com a acta, depois desta ser publicada... Para já uma conclusão: a luta desenvolvo-a em todo lado e regozijo-me por ter muita gente a meu lado!

(1) - Votos a favor: PS-3, CDU-2, BE-1 Abstenções: IOMAF-10 Votos contra: PSD-4, CDS-1 
(2) - Votos a favor: PS-3, CDU-2, BE-1, IOMAF-2 Abstenções: IOMAF-8 Votos contra: PSD-4, CDS-1

27 novembro, 2013

Vila Moleza e o (re)despertar do meu herói...


O Diogo não gosta de um momento ocioso, que não mexa. Não tenho a certeza se ele se preocupa com as minhas preocupações, mas sei que ele se preocupa com o que se passa em Vila Moleza... Regressou hoje a esses temas antigos, quis reler tudo sobre os medos... e enredos. Ele, Sportacus, derrotará o RobiReles, libertará os amigos e o povo inteiro.
Entender o "bem" e o "mal", que tal? E depois pedir em casa maçãs com casca! Boa?


26 novembro, 2013

"A Terra rebentará, podemos tê-lo por seguro, mas não será para amanhã. Do que estamos a necessitar é de um bom susto. Talvez despertássemos para a acção salvadora."

José Saramago
Dias históricos são todos, uns mais que outros. O de hoje, em que não acabou o mundo, é um dia que deve ser registado como o de um salto, num processo que se supunha lento.
Até hoje, apenas o trabalho resistia, lutava e as formas de luta pareciam esgotadas. As fotos documentam alterações qualitativas: As organizações de empresários aderem ao protesto, à indignação, ao luto. Os sindicatos fazem ocupações simbólicas. As universidades embatucaram Passos.

Amanhã é outro dia, mais próximo do susto de que falava Saramago.

25 novembro, 2013

O vintecinco de Novembro

(tinha de ser)

O dia que hoje se comemora e a necessidade de preservar a memória

A violência doméstica é um flagelo? É! Todos os jornais exibem estatísticas sobre mortes de mulheres e casos de violência física e não só. O DN dedica ao dia o editorial sob o título "Violência de Género". Podia ser rigoroso.
Podia escrever que em 1999, a Assembleia-geral das Nações Unidas (ONU) designou oficialmente o dia 25 de Novembro como o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres. A decisão liga-se a acontecimentos históricos relacionados com a resistência à ditadura de Turjillo. A data é uma homenagem às irmãs Mirabal (Maria Teresa, Pátria e Minerva), presas, torturadas e assassinadas em 25 de Novembro de 1960, por serem opositoras políticas ao regime. A data devia ser lembrada por isso e pela necessidade de se eliminarem todas as formas de violência e não apenas a que, neste contexto, dá mais jeito. Preservemos a memória!

24 novembro, 2013

António Gedeão, meu irmão


Quase me passava, mas há sempre alguém que vem lembrar: 24 de Novembro de 1906

Geração sentada, conversando na esplanada - 41 (Um escrito para ser lido na "Aula Magna"?)

(ler conversa anterior)
"...Os gestos úteis e rápidos da mão mergulhados na máquina não são danças - por muito que, ao longe, se assemelhem; de facto, os dedos na fábrica são necessários (são os dedos da necessidade) e bem diferentes são dos dedos inúteis de quem dança. Mão necessária e mão desnecessária em termos funcionais. Só os olhos de quem vê é que precisam da mão que dança. Porque essa mão não faz nada, só se mostra."
Gonçalo M. Tavares, in Noticias Magazine

O engenheiro estava a conversar com o seu cão rafeiro à falta de ter com quem conversar. Quando cheguei não interrompeu logo aquela conversa que tinha como resposta orelhas espetadas e abanar de cauda. Um cumprimento de leve aceno e lá continuou deixando que eu bebesse o café e desse uma olhada pelo jornal. Depois avançou:
- Então? Hoje o puzzle foi de fácil resolução? "Mão necessária e mão desnecessária"... mais directo, não?
- Sim, um pouco! Permite uma leitura, e eu fiz a minha!
- Qual?
- A leitura de ser a mão que pertence ao corpo que dança a mais visível e a mais mostrada! A outra,a mão necessária, mesmo quando se olha não se vê. O que não se mostra não existe. O Marcelo também o disse. Mas dá para pensar que não existe mesmo. Não existem dedos que se metam na máquina. Ou melhor, deixaram de existir máquinas onde se metam os dedos. Eu próprio o disse, e mais: disse ser eu o responsável por isso.
- Lembro-me desse escrito. Perfeita a sua ironia... foram todas aquelas empresas? A lista é tremenda: Siderurgia Nacional; SAPEC; MAGUE; Companhia Portuguesa do Cobre; MJO; Fundição de Oeiras; a Reguladora; a IPETEX; a J.B. Corsino; a Companhia Portuguesa de Trefilaria; a Sociedade Portuguesa dos Sabões?
- Foram todas essas e mais aquelas que agora nos dariam jeito ter para lá meter a mão...
- Por exemplo?
- A Sorefame; a Equimetal; a Metalsines... também nessas os dedos rápidos deixaram de mergulhar nas máquinas... Se quisermos fazer andar os comboios temos que ir ter com mãos necessárias aos alemães, enquanto as nossas dançam... e são mostradas.
- E aquela alusão à família?
- "Uma família é estável quando se contabilizam as energias internas e se percebe que não há cortes de energia entre pais e irmãos, entre a avó e a sua lenta cadeira de baloiço." Refere-se a esta? 
- Refiro-me a essa, exactamente!
- As mãos necessárias aos alemães são as mãos que partiram daqui, percebo que só faz sentido que o Gonçalo nos queira dizer que se está perdendo a estabilidade da família e que a contabilidade da energia interna dos afectos está sendo cortada...
- E aquela alusão às facas? 
- É um aviso, uma ameaça velada, um apelo à violência perante o risco do retrocesso!
- Quer então dizer que o escrito de hoje mais parecia um discurso para ser lido na sessão da "Aula Magna"? Nem sei como viu tudo isso no escrito...
- Cada um vai buscar a uma metáfora o que consegue extrair dela...
- Mas o Gonçalo podia ser mais claro...
- Podia ser mais claro! Acaba por dar inteira impunidade à mão que dança!

22 novembro, 2013

Poesia (uma por dia) - 54

(de Rogério Ribeiro in "Até amanhã, camaradas")
A UMA BICICLETA DESENHADA NA CELA

Nesta parede que me veste
da cabeça aos pés, inteira,
bem hajas, companheira,
as viagens que me deste.

Aqui,
onde o dia é mal nascido,
jamais me cansou
o rumo que deixou
o lápis proibido...

Bem haja a mão que te criou!

Olhos montados no teu selim
pedalei, atravessei
e viajei
para além de mim.



21 novembro, 2013

Dias históricos são todos, uns mais que outros!


Diga-se o que se disser da força, a da razão é que é a força forte...


Falavam. Que diziam? Não importa
Talvez dissessem que estamos a viver dias históricos
Talvez falassem argumentando, de cada lado da barricada
Talvez argumentassem que a barricada está noutro lado,
e ali nada os separa. Nada
E deu-se o que se devia dar
Mas o ponto alto não foi o argumento que cada lado
Nem a subida desenfreada, da escada
O ponto alto foi aquela força se deter, no ponto
em que mais avanço não valia tanto

Conclusão? O poder legitimo está do lado da razão
e esta, tem muito cuidado, para que não se perca

A pouca distância dali vão começar os discursos...
Que a palavra tenha a força da jornada

20 novembro, 2013

O Livro. O Livre. A classe média... e o Euromilhões

A Ironia do Projecto Europeu: talvez sobreviva o Euromilhões
"Penso que essa predominância (da direita) se deve também, e talvez até principalmente, a uma percepção por muitas pessoas das propostas da esquerda não como injustas ou erradas, mas como eminentemente irrealistas e feridas de tal forma de irrazoabilidade que nem sequer o pleno das forças de esquerda conseguem reunir."

Isto aparece escrito. Assim, podemos esperar que para se conseguir o tal pleno é preciso colocar de lado propostas, mesmo que justas, votá-las ao ostracismo, mesmo se certas... vão procurar, então, a tal razoabilidade que leve a pequena e média burguesia a dar-lhes mais crédito que aquela que depositam nos resultados das "raspadinhas", na esperança de virem a ser remediados ou até excêntricos endinheirados.  Tudo se resolve com uma consciência de classe que tarda...

Até lá vão surgindo iniciativas, mas alguém lembrou bem lembrado "É como andar a lavar a louça num alguidar com a mesma água: ela vai parecer lavada."

18 novembro, 2013

Irlanda 30 - Portugal 0

Título e imagem roubados ao "puma"
Passos Coelho defendeu no sábado que o sucesso irlandês no regresso ao financiamento dos mercados se deve à aplicação de medidas mais duras no que diz respeito aos salários e às pensões. É uma afirmação que traz escondida a intenção de espalhar a confusão e fazer sustentar um orçamento violento e pesar "sobre os mesmos de sempre" a violência que comporta. É um gato escondido com o rabo de fora, que pouca imprensa denuncia. Mas alguma coisa se vai dizendo (fora da esfera dos sempre silenciados):

"O facto de as exportações na Irlanda, durante o período de 2009 a 2013, representarem 108% do PIB do país – contra 39% de Portugal – mostra a capacidade do país em competir nos mercados internacionais, que não se perdeu com a actual crise." 
Público, hoje
"...a crise portuguesa, por exemplo, advém da falta de crescimento económico ao longo da última década. Já a crise irlandesa foi despoletada pelos problemas no sector financeiro do País...
Jean-Claude Juncker, hoje no Económico
;As medidas "...duríssimas" que a Irlanda tomou foram três medidonas, na verdade -- a) impor à troika uma solução para as promissórias que salvaram o sector bancário falido, transformadas em dívida de longuíssimo prazo; b) impor à UE e à troika a manutenção do seu código de IRC que lhe permite exportar e reexportar mais de 100% do PIB; c) impor à troika uma saída do resgate sem programa cautelar." 
 J. Nascimento Rodrigues, ontem no facebook
 Quem souber ler, que o faça

Escola da Minha Vida: Nuno Gonçalves - 2

Na escola é que vamos aprendendo. O reconhecimento aprende-se pela prática, fora dela. Por isso é justo que o esforço da memória seja feito para que os nomes e os instrumentos que nos deram estrutura não se percam. Este texto fala desse esforço e dessa justiça.
«As imagens que vimos, os corpos que tateamos, as memórias que temos, o cérebro só os processa por meio dessas abstrações nem sempre audíveis que são as palavras. Com elas convencemos e somos convencidos e, para tal, a escrita é a forma mais apurada de a palavra ser usada. Somos, de facto, verbo. Mas o principio continua a ser o acto, pois é ele que alarga o universo das palavras conhecidas, lhes vai dando sentido, coerência e a garantia de que "o Mundo pula e avança"»
Rogério Pereira, aqui

A gramática, premonitória, ilustrava em 1958/59 o que eu escrevi há poucas semanas...

PS: Tinha quase a certeza que o nome do meu professor de português não era aquele que um amigo meu referia no seu comentário  aos post "Escolas da minha vida: Nuno Gonçalves". Porque a gramática era de sua autoria fui investigar e um sitio de vendas de coisa antigas e velharias tirou as teimas. Eu nunca aprenderia nada com o tal prof. Xavier Pintado!

17 novembro, 2013

"Café Chaimite"


Assim, de frontaria comum que alguém disse ser uma cafetaria sem caractér, fui dar, pelo google earth, com o Chaimite. Há cerca de 50 anos atrás era diferente, forçosamente diferente, mas ainda assim em tudo guarda a memória que tenho do que era no meu tempo. Não se vai, sem razão, procurar reminiscências longínquas. A razão se explica com acasos. Reencontrei amigos. Amigos com quem discutía o que éramos, o que pensávamos e como nos expressávamos, independentemente de se gostávamos, e isso nos ligou muito. O Chaimite foi um marco no meu percurso. Celebro isso.

Geração sentada, conversando na esplanada - 40 (eles escrevem para nos manterem sentados)

(ler conversa anterior)
"Duas cadeiras, lado a lado, numa das principais praças do bairro. Os dois sentados. O senhor Foucault está com os olhos baixos, fixos numa zona do solo - um quadrado preto que anuncia um estranho poço, de grande profundidade.
Não deixando de escutar o que lhe diz o senhor Voltaire, o senhor Foucault, de vez em quando levanta-se, debruça-se sobre esse quadrado negro e olha demoradamente lá para baixo.
O Senhor Voltaire mantém sempre um sorriso no canto da boca que denuncia o sarcasmo - a distância psicológica e moral em relação às coisas de que fala."
Gonçalo M. Tavares, in Noticias Magazine

Na esplanada parece que, após uma semana, ninguém tocara em nada. Parece que não se mexeram dali, nem para mudar de roupa ou de sorriso ou de tema. Apenas o bolo que o rafeiro do senhor engenheiro mastigava parecia ser da fornada do dia. O velho ficou agradado com a minha chegada:
- Olá, meu caro. Pelos vistos fez as pazes com o Gonçalo... já li o seu escrito!
- Não faço pazes com quem não guerreio, limito-me a traze-lo para a esplanada e tentar resolver o puzzle que escreveu...
- Puzzle?
- ...este quebra cabeças. Veja: dois homens, de nomes estrangeiros, espreitam para um buraco, quadrado, fundo, fundo como o diabo, no século passado e depois diz que um deles tem um sorriso ao canto da boca que é de sarcasmo. Tenho de resolver isto...
- Uma charada!...
- Uma metáfora, que merece ser decifrada. Fico aqui sentado até lhe descortinar o sentido e depois começar a pensar!... Para encaixar as pedras, só sentado. Se depois me puser a pensar já posso andar. Pensa-se melhor quando se caminha, quando se anda!... Pensar faz já parte da acção!
- Fico feliz por saber que o senhor, então, não abandonou o interesse pelo escritor!
- ... reconheço que estou fazendo um esforço que a não ter existido já tinha desistido...
- ... aposto que as cronicas do Lobo Antunes ou do Ricardo Araújo Pereira são boa alternativa, são de escrita directa e bem dispostas!
- ... são de uma ironia inteligente, mas dizem tudo. Não deixam nada para o leitor ficar a pensar. Depois de as ler ainda julgo que vale a pena me levantar. Mas acabo por ficar sentado.
- O senhor é ao mesmo tempo exigente e persistente!
- Talvez! Meu Contrário diz isso mesmo de mim!
- E sua alma?
- Minha Alma diz que sou um homem com esperança! 
- Espera então o dia em que o Gonçalo o deixe desassossegado!
- Sinceramente, espero sim!

16 novembro, 2013

A Fundação Saramago assinala um dia, este. Dia do Desassossego. Que seja. Eu penso de tal o que penso do Natal: que todos os dias sejam de desassossego, que todos sejam de renascimento!



O desassossego foi marcado, com prazo, datado. Nada mais contraditório com a necessidade destes dias e em confronto com os actos e as palavras de Saramago, que todos os dias nascia. Ainda assim associo-me à efeméride, porque o farei também amanhã, depois e sempre. Ordenou Minha Alma, subscreveu Meu Contrário e, também esse Eu, que sobre Saramago tanto escreveu:
"A pergunta que todos deveríamos fazer-nos é: Que fiz eu se nada mudou? Deveríamos viver mais no desassossego. Não haverá amanhã se não mudarmos o hoje. Como se conta em A Caverna, tudo o que levamos às costas é passado e todo esse passado, incluindo a desesperança e a desilusão, é o que influencia o amanhã. Há que fazer o trabalho todos os dias com as mãos, a cabeça, a sensibilidade, com tudo."
José Saramago, in "Nas Suas Palavras"

15 novembro, 2013

Os artistas e a interpretação estatística

 
Ia tudo tão bem com a notícia propalada, quando recebe uma tremenda pedrada...

 
Uns dizem que a pedrada foi arremessada pelo tal Tribunal Constitucional, 
mas eu acho que foi este que lhes "descobriu a careca" 

Em vésperas do Orçamento acontecer... tudo bem, para "inglês ver"...

 
Todos os dados da queda do aparelho produtivo desde 1976 
foram enviesados pelo efeito de espelho... 
e agora o PIB cresceu
É sustentável? Como? Deus meu...
E, se isto é verdade, o que vai acontecer? Meu Deus, o que vai acontecer?
NOTA: Tantas perguntas a Deus é apenas porque os milagres só a Ele são imputáveis

13 novembro, 2013

"vai ser difícil sair disto... estamos assimilados e o povo tarda... não acorda..."

Escrevi eu, um dia


Desobediência civil
Acontecerá, mais dia menos dia, 
que se passará das palavras aos actos. 
Dar-se-á sentido ao "estamos fartos" 
e ninguém sabe a medida do que o povo pode
nem ele, cuja memória o afasta da história

A Democracia não se suspende para um só lado
e a fome nunca foi conselheira inesperada
tal como a consciência
se desperta, não pára
Resistir é direito constitucional 
se esquecido, tarda a ser usado
Rogério Pereira

12 novembro, 2013

Memórias, com bichos - 2 (Gato, 1986 - 1992 )


O gato chamava-se Gato, não por falta de imaginação ou falta de madrinhas (o Gato foi, além do "dono da casa", o primeiro macho da família). O gato chamava-se Gato porque alguém, ninguém se lembra quem, o chamara "anda cá, gato" e o Gato, de pronto, respondeu com um "miau" ternurento ao chamamento. 

Lembram-se do Gato não pelas cortinas caídas, reposteiros arranhados, ou jarras partidas em resultado daquele seu exercício de se passear, lento e dengoso, sobre as prateleiras do móvel da sala onde se expunha (e até hoje continua exposto) um autêntico acervo da memória que o "dono da casa" fazia (e faz) questão em olhar diariamente. Lembram-se do Gato porque ele era a referência da sua própria humanidade: "Se a inteligência tivesse escala, bem podíamos ser  mais humanos..." Lembram-se do Gato, pela sua habilidade em lidar com aquilo que julgava (sim ele tinha esse juízo) ser o temperamento daquela família e de cada um, isoladamente. Com a diplomacia, doçura e afectividade à medida.

Entre o "dono da casa" e o Gato havia um pacto: ele sancionava a liberdade ao Gato de ocupar todos os espaços, o Gato retribuía-lhe não ocupando o espaço que entendia ser cativo do "dono da casa". A liberdade usava-a repartindo todos os regaços e colos, mas na hora do sono ia ter com a dona para aos seus pés dormir, na hora do comer era à dona que ia pedir. Ás vezes miava, mas a comunicação preferida era a de uma agitação contida.
O Gato era um exibicionista, um verdadeiro artista. Bastava que a família estivesse reunida e sem lhe prestar atenção, ele não perdoava a distração e lá vinha aquela correria doida e o salto felino, trepando a parede ao fundo. Ele não se inibia de públicos gestos obscenos com a inesperada namorada, um peluche já com bastante uso, animal indistinto que todos jurariam ser um urso e que o "dono da casa" trouxera de Hannover, como prenda em retribuição de uma ausência...

Um dia, na janela soalheira seu pouso de todas as manhãs, aconteceu. Um pombo atrevido sobrevoou-lhe o sono e o Gato, num gesto mal reflectido de resposta à provocação, quis ripostar e lá foi... pelo ar. A queda todos a supunham mortal. O "dono da casa" desceu a escada, três lances em corrida, degraus saltados a quatro e quatro na ânsia de acudir ao Gato. Já na rua, agarrou-o a custo pois o Gato declarava o susto com as garras e com o desespero. O "dono", mesmo arranhado, ia conferindo se estavam todas as sete vidas. Estavam. 
Nessa noite, o Gato dormitou um pouco no colo do seu salvador, até adormecer, como costumava fazer, ao colo da Maria João. Da segunda vez que caiu daquele terceiro andar, nada há que contar: a experiência fez com que tudo parecesse normal.

Epílogo

Perto de um ano depois da João ter saído de casa para ocupar o pequeno apartamento da Cruz Quebrada, ligou chorosa. O Gato desaparecera. O Gato desaparecera sem deixar rasto em todos os lugares onde o procurara, em todas as portas em que batera. O "dono da casa" esboçou um sorriso triste e pensou "A densa mata do Vale do Jamor é um apelo a qualquer felino, que se danem os ratos e que se satisfaça o Gato com verdadeiras fêmeas, mais atraentes que um usado peluche..."
Mesmo na incerteza desse destino, dava-lhe descanso pensar que fôra esse o que tinha tido...

11 novembro, 2013

Álvaro Cunhal, ontem

I
As canções lembram raízes, o coro era a harmonia semeada de bandeiras vermelhas e foi-me reforçada a convicção: há mortos que jamais morrerão!
(e o Campo foi Pequeno para acolher os enriquecidos. Os homens nunca se repetem, os exemplos deixados e os valores proclamados, sim! )

II
As imagens que vimos, os corpos que tateamos, as memórias que temos, o cérebro só os processa por meio dessas abstrações nem sempre audíveis que são as palavras. Com elas convencemos e somos convencidos e, para tal, a escrita é a forma mais apurada de a palavra ser usada.
Somos, de facto, verbo. Mas o principio continua a ser o acto, pois é ele que alarga o universo das palavras conhecidas, lhes vai dando sentido, coerência e a garantia de que "o Mundo pula e avança"...
III
"Quem ainda está vivo não diga: nunca
O que é seguro não é seguro
As coisas não continuarão a ser como são"

10 novembro, 2013

Geração sentada, conversando na esplanada - 39 (Álvaro Cunhal, 100 anos)

(Ler conversa anterior)
"Uma escrita que pensa. Um pensamento que narra." - Sobre Vergílio Ferreira 
"E os seus textos: sempre a meio passo entre prosa e poesia. Prosa porque narra, poesia pelo que esconde e pelo que acerta." - Sobre Carlos de Olivaira
".... a prosa parece ser para a autora uma forma diferente de fazer poesia" - Sobre Sophia

As professoras discutiam estilos formais, perante o olhar displicente do cão rafeiro do senhor engenheiro e o ar distante deste. Eu não, concentrava-me naquela discussão. E não me contive, levantei-me da mesa onde estava e dirigi-me ao grupo. "Posso ler-vos este trecho?" e li, sem esperar a resposta:
"O exterior parece terrivelmente inimigo. Como se nas ruas só passassem funerais. Como se nos roubassem a família, os amigos e quedássemos sós e desamparados.
A tragédia intensa do presente emprenha a visão do futuro de sombrias expectativas. Afigura-se a muitos que no futuro haverá sempre rostos empalidecidos e cheiro a pólvora e a sangue quente. Ontem parecia que o dia de hoje havia de ser risonho e acolhedor. E agora, agora, que grande serenidade para poder crer no dia de amanhã!
Quando a vida é incerta e baila ante os homens a perspectiva da morte, inunda-os uma ansiedade traduzível assim: «irei tão cedo deixar de ser?»
Só um grito desesperado de momento pode afirmar que esta vida não vale ser vivida. Quando se marcha em direcção ao espectro, mesmo que os passos sejam voluntariosos e firmes, o bater do coração compassa a ansiedade. O futuro é negro: mas na própria negrura não há ausência de luz. Por isso, ante os perigos, a expectativa traduz-se: «irei tão cedo deixar de ser?» E, quanto mais desalentadora é a visão do mundo que fica, quanto mais fundo é o remorso de pouco se ter feito para deixar aos filhos mais valiosa herança, mais dura e brutal aparece a visão da morte. A admissão da estabilidade de um mundo a que se não podem mostrar os corações, força a lançar rápido e iluminado olhar ao tempo em que se esperou, em que os ora desalentados ainda tinham fé no que hoje não é presente e então parecia vir a ser futuro. Uma derrota profunda e dorida leva muitos a pensar que haverá sempre e só derrotas. Ver morrer os outros vencidos; talvez também morrer vencido. No vasto mundo muitas vezes se apagam vidas, ao procurarem derrubar velhos e endurecidos troncos. E há sempre quem represente o papel de irmão desalentado: «Para quê viver? Coisas que sempre foram e hão-de ser... O homem vive encadeado a leis irresistíveis. Inúteis os sacrifícios dos que procuram modificar os seus ditames». Como se os homens não pudessem construir a sua própria história. Como se as leis da evolução das sociedades não reservassem lugar à vontade humana.
Horas de dor, de sofrimento, de tragédia. Horas em que a expectativa da morte baila com insistência ante os olhos.
Então o homem sente necessidade de justificar a sua própria existência. Há que dar uma resposta às perguntas: «que andei e que ando por cá a fazer? Que tenho feito pelos outros e pela história?»
O homem teme deixar de ser na terra. Um sono sem despertar choca violentamente contra a estrutural vontade de viver. O ser recusa-se a aceitar o próprio desaparecimento. O apagamento total e sem apelo é incompatível com a existência actual.
Por isso, aqueles que acreditaram e não crêem fogem, afastam-se, renunciam. Por isso também há homens que projectam a sua existência para além da morte. Uma alma que voe para rumo extra-terreno. Ou um ser que se desintegra para subsistir integrado em novos seres. Qualquer coisa que justifique o caminho percorrido entre o nascimento e a morte. Sonha-se para fora da terra com uma vida que nesta se não tem. Ou sonha-se com o que fica...
A morte é elemento essencial da vida. Mas isso não basta para que se aceite sem mágoa. É que a pergunta: «deixarei de ser hoje? amanhã?» — intensifica e aproxima o grande problema de consciência: «O que andei por cá fazendo? Que fica sobre a terra da minha passagem sobre a terra?»
Não satisfaz uma vida além-túmulo, mesmo que a imaginação empreste à alma asas imateriais. É esta terra donde brotou o pão que manteve o corpo e a água que matou a sede, esta terra donde tudo (mesmo pouco) nos veio e para onde iremos — e é esta humanidade a que pertencemos, este grande colectivo a que nos liga o sangue, o amor, o ódio e a interdependência — é esta terra e esta humanidade que nos exigem uma explicação.
Assim o problema da morte é o problema da vida. Depois que desapareça tudo o que de nós houve! Ou que subsista a alma! Ou que os vermes perpetuem a existência do nosso corpo! Mas a expectativa da morte ou dum futuro de sombras perpétuas (que derrotas intensificam) chama a recordação do passado. Que poderia ter feito para que meu irmão não fosse vencido? Não lhe deixei só a ele uma tarefa que também me pertencia? E ainda... Que foi feito de toda esta energia dispendida em vida e tão sofregamente sugada? Que fica — não do meu corpo ou da minha alma — que fica das minhas acções duma vida inteira?
E a perpetuidade da nossa vida, a resistência contra um breve deixar de ser, fixa-se neste ponto vital: a justificação e perpetuidade das próprias acções, do que se fez no caminho percorrido entre o nascimento e a morte.
Haverá espectáculo mais doloroso que o do velho que olha atentamente o passado, medindo cada passo, avaliando o efeito de cada gesto, e por fim tem um grito de desalento, remorso e desespero: «uma vida inútil...?» Haverá constatação mais angustiosa que a da própria inutilidade? Não será precisamente essa constatação que as mais das vezes leva ao desejo de não ser? A inutilidade da vida é a afirmação de que nada fica das acções praticadas, de que se gastou o tempo a queimar tempo.
E então talvez valha a pena fitar a morte e esperar o para lá. A não ser que se olhe em frente — mesmo que o limite se espeque num amanhã irrefutável — e se marque uma finalidade à vida. Quando a perspectiva da morte ou dum futuro trágico baila ante todos, até os jovens, como os velhos, olham o passado. E, depois, quantas vezes o desinteresse e a renúncia não vêm juntar a uma derrota ou a um momentâneo recuo colectivo, uma irremissível derrota individual.
...Porém, quando assim se não voga ao sabor da corrente, mas antes se escolhe caminho e se marcha, novamente o futuro sorri, à nossa vida ou à nossa morte. Sorri porque nele se adivinham marcadas as acções que vão ser praticadas. Porque a nossa vitalidade é afinal a direcção do que vem. Porque se ganha confiança na perpetuidade dos nossos actos. Subsiste a alma? O apodrecimento e desintegração é a última étape? Que interessa isso, se ganhámos uma nova eternidade!
Enquanto a humanidade for humanidade, as acções que hoje praticamos estarão sempre presentes, resistindo ao tempo e ao esquecimento a que nos votarão os nossos netos. Já os nossos corpos terão perdido a forma humana, já as suas partículas viverão separadas e dispersas e ainda nas sociedades futuras os efeitos dos efeitos das nossas acções evocarão a nossa passada existência. Com esta concepção, sentimo-nos (hoje) obreiros anónimos do futuro. Ao problema da morte, do não ser, responde satisfatoriamente a certeza consoladora deste prolongamento da nossa existência. Se se pudesse falar em eternidade, esta seria a única eternidade da nossa vida, como seres pensantes e voluntariosos.
Por isso, quanto mais sorridente é a visão do mundo que fica, quanto mais funda é a consciência de que tudo se fez para deixar aos filhos valiosa herança, menos dura e menos brutal aparece a visão da morte.
Não se trata de olhar para trás e perguntar com angústia: «que fiz? que fiz?» Trata-se de olhar em frente e perguntar com confiança e serenidade: «que poderei ainda fazer?» Não é só um exame de consciência que urge fazer: é também um apelo à consciência!
Com tal procedimento não se visa conquistar a absolvição dum juiz que após a nossa morte nos venha a ter em frente sentados no banco dos réus. Além da história, ninguém nos pedirá contas. Nem a nós, nem aos nossos espectros. Somos nós que nos devemos interrogar e julgar. Isso nos exige a vontade de viver e de perpetuar a nossa existência. Isso nos exige a gratidão. Isso nos exige a lembrança dos irmãos que morreram ao pretender desenraizar endurecidos troncos. Pode não conhecer-se o triunfo. Mas pode soçobrar-se sem que no mundo fiquem só trevas. Talvez assim nos venha acalentar a necessidade dum sacrifício heróico. E então, porque não falar em felicidade? Num mundo em que não há risos sem lágrimas, a felicidade nunca pode ser uma situação com caracteres próprios e momentâneos. A felicidade não pode existir, não existe, como situação particular: nem quando dependente de factos estranhos à própria vontade; nem como ideia abstracta. A felicidade só pode existir como um atributo de toda uma vida. Só a satisfação pela vida que se vive poderá tornar feliz. Há então que não subordinar as acções ao alcance dum prazer. Mas antes amoldar a ideia de felicidade à vida que se vive.
Quando não nos sentimos meros joguetes da evolução mas, pelo contrário, sentimos que, mesmo ao de leve, as nossas energias modificam o seu ritmo. Quando sabemos ser leais, rectos e solidários. Quando amamos profunda e extensamente e nos sentimos capazes de sacrificadas demonstrações do nosso amor. Somos felizes porque não desejamos outra vida, porque sentimos preenchida a própria função humana. A felicidade só existe assim como condição da consciência da própria utilidade. Não dispersar actividades. Proceder com um critério. Ser coerente em todas as atitudes. Agir com uma só linha de conduta. Ter fé na própria vontade, embora aceitando as suas determinantes. Convicção de impotência e felicidade excluem-se.
Assim far-se-á da própria vida uma vida feliz. Feliz nas horas de ascenso e nas horas de derrota. Feliz na alegria e na tristeza. Porque, na felicidade, prazer e dor interpenetram-se. Até o estertor final pode conduzir à felicidade pela convicção de que se morre bem. Não pode haver felicidade sem dor, porque esta é inseparável da vida. Que se sofra! Mas que as vontades saibam amordaçar o sofrimento para triunfar. E para isso, é necessário forjar nos peitos o desinteresse pessoal por prazeres efémeros, a rijeza de aço para lutar, o esclarecimento das exigências dos sentidos. Através da dor e da angústia, corações ao alto!
Se a felicidade é dada pela satisfação da linha de conduta, pela satisfação de que se procede bem, nada, nada, nem os gritos da própria carne esfacelada, nem lágrimas de emoção, nem a revolta instante e desesperada, pode destruí-la. Porque, acima dos próprio gritos, das próprias lágrimas, do próprio desespero, fica sempre a certeza duma vida voluntariosa e independente ou – se se preferir a expressão – recta, leal, digna.
Então suporta-se a dor e ama-se a vida. Podem as leis da natureza esfrangalhar o corpo. Podem os órgãos começar cansando. E as pernas vergando de fadiga. Amortecendo-se a percepção. O corpo começar em vida o seu desagregamento. Poderá bailar ante os olhos a perspectiva da morte e o fim especar-se num amanhã irremissível.
E haverá sempre vontade de continuar, procedendo sempre e sempre duma forma escolhida, marchando sempre para um destino humano e uma missão terrena voluntariosamente traçada. Haverá sempre anseio de continuidade e aperfeiçoamento.
Atravessar-se-ão tragédias com lágrimas nos olhos, um sorriso nos lábios e uma fé nos peitos."* 
Cheguei ao fim e olhei-as a ver o efeito produzido. Uma tinha lágrimas nos olhos, as outras sorrisos nos lábios, mas não as questionei sobre crenças...
*Álvaro Cunhal - "Um Problema de Consciência" in Obras Escolhidas - I - 1935-1947 (página 41) .

08 novembro, 2013

O cu e as calças, a incapacidade de estabelecer conexões e retirar conclusões... 2

Hoje foi dia de resistência e luta. É duro dispensar um salário quando ele está minguado e mesmo assim, a aderência prova que há quem vá estabelecendo relações entre o que está a acontecer e o passado. Não só do passado recente, pois o que estamos vivendo resulta de um processo sinuoso, persistente, no qual se incluem factos datados:

Da contrarrevolução ao resgate...

Que haja a capacidade de perceber que o que hoje é notícia resulta do muito que foi acontecendo ao longo do tempo, não acontece de repente o empobrecimento (nem por acaso):
"...o número de multimilionários em Portugal, ou seja com fortunas superiores a 25 milhões de euros, aumentou 10,8% para 870 pessoas no último ano. São mais 85 ‘afortunados’ do que os 785 registados em 2012."

07 novembro, 2013

Memórias, com bichos - 1 (Lobita, 1979 - 1985)

"Rrs, rrrs...", rosnava ela no sentido da porta.
"Quieta, Lobita, se não ficas quieta..." E o aparato justificava que ficasse quieta: tesoura, compressas, algodão, água oxigenada, tintura de iodo pois nesse tempo era o que se usava. Tudo pelo chão e elas, de roda da cadela, com caretas de repulsa e pena tratando da ferida, incisa, já purulenta.
"Rrrs... uhm... farejo e não sinto que haja razão para rosnar... é odor de gente em quem confiar, de homem... sim é homem... vai entrar, o melhor é baixar a cabeça e esperar pelo que aconteça"
A chave deu uma só volta e o homem entrou. A Lobita manteve a cabeça baixa e elas, a Sandra e a amiga dela, apanhadas de surpresa levantaram-se de um salto. "Pai, estás aqui... ainda bem que chegaste... não sabíamos se estávamos a fazer bem... ela foi ferida, certamente por maldade... o que falta por aí é gente cruel... podes ficar descansado pois ela não fica cá... ela... " As palavras saiam, nervosas, de enxurrada como se quisessem evitar ouvir o que menos queriam ouvir. A Lobita mantinha a cabeça baixa e pousada sobre as patas dianteiras que manteve estendidas, mas os olhos tinha-os fixados no homem que entrara. Sentia-se segura, mas de qualquer forma e pelo sim pelo não colocou aquele olhar de submissão cujo resultado já tinha mais de mil vezes testado, com resultado. O homem acocorou-se, silencioso, e pegou em duas compressas, uma em cada mão e inspecionou a ferida. "É profunda, mas nada de iodo. Se já puseram água oxigenada não ponham mais nada. Nem precisa de dreno, vai fechando..." e lá foi explicando como as feridas se comportam... "Pai, sendo assim é melhor ela ficar em casa até se curar..." A Lobita entendeu o que aconteceu, o que foi dito e que o que ia acontecer a iria favorecer, aprendera a ler no rosto dos homens e este tinha a alma estampada na cara.
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A cadela ficara mesmo depois de sarar a ferida. Conhecia as manhas de cativar e de se fazer aceitar. Escolhera a cozinha, para estar. Fazia companhia na sala e não se aventurava aos quartos, a não ser em curtas escapadelas de brincadeiras ou de furtivas ternuras. Sem esforço o fazia. Era uma espécie de voluntário reconhecimento por ter trocado a dureza de "sem abrigo" por aquele teto. De uma coisa não se dispensava, era a primeira a sair e a última a chegar. Não se pense que regressara à vida de sobrevivência de rua, era a vagabundagem, era esse dia-a-dia de liberdade que não prescindia. A Lobita, de manhã, colocava-se à porta olhando-a fixamente, abanando a cauda. "Fico aqui até que ela se abra!" Quando ninguém a abria, gania, num ganir quase cantado. Depois saia e corria, brincava com uma borboleta (quando havia) e ia que nem uma seta directa ao pavilhão do Liceu onde a Sandra ia ter a sua primeira aula. Entrava e ali ficava sentada mesmo depois da aula ter começado e até querer. Ninguém se lembra como tinha conseguido tal estatuto de assistente, se com o seu olhar submisso se com aquele outro, frio, que tão bem se ajustara ao nome que, um dia, alguém lhe tinha dado.
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"Engenheiro, tem uma chamada na cabine de controlo do trem continuo, acho que é a sua mulher". Ninguém atende chamadas particulares, só em dias em que a fábrica fica parada para a manutenção. Ele apressou o passo e atendeu. A Lobita tinha parido e a mulher explicou, com todo o detalhe, a sucessão dos estertores, as dores quatro vezes contidas, tantas quantas as vidas dadas à vida e durante toda a noite passada. Contou, sem olhar ao custo da chamada, como a Lobita ficara cansada, como carinhosamente "lavava" cada cria e como a cozinha ficara limpa. Contou como só uma mulher sabe contar. Ele despediu-se com um beijo e com um "temos que festejar isso"... 
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Passava da meia-noite quando ela apareceu. A Sandra não saíra da janela, à espera. Quando a viu chegar à praceta, correu a abrir a porta em baixo. A Lobita fez como sempre fazia, com a pata direita empurrou a porta e com o dorso forçou mais um pouco até penetrar o corpo. Subiu o terceiro andar e entrou. Esgueirou-se, com a cauda entre pernas e foi-se enroscar no seu canto, enquanto ouvia o ralhete. A família suspirou mas ninguém se foi deitar sem tomarem uma decisão. Não porque tinha de ser assim, mas porque era a natureza das coisas, dos seres e das pessoas. 
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Chegou o verão e o dia da viagem também. Eram tempos em que as férias se repetiam num só destino: a Areia Branca. A Lobita foi e não voltou. Foi dada com a garantia de ser estimada, de ter a largueza de  um campo com borboletas e outros bichos de fazer reboliços e tinha funções para a quais fora talhada: fazer companhia e guarda. A despedida doeu a alma de todos, mas não conheço uma só vida sem despedida. Para elas era a primeira. Para a Lobita era mais uma, mas o seu pensar quase se fazia ouvir "Ninguém se despediu de mim assim, fico aqui a olhar até os deixar de ver. Fico aqui a olhar, até que regressem." 
Epilogo

Dois anos seguidos, por altura das férias, a família visitou a Lobita. Ela estava sempre onde a tinham deixado da primeira vez, postura inteligente de uma alegria mal contida e nada amuada, nem resignada. Percebemos que estava feliz. Da terceira vez, não esperava, não estava. O dono contou que ela passara a fazer ausências sucessivas, cada vez mais prolongadas que nas quintas vizinhas se queixavam de a criação desaparecer  e que tiveram que a amarrar. A Lobita partira a tentar soltar-se, a ânsia da liberdade sufocara-lhe a vida. Todos choraram a partida e ele, durante muitos anos, sentiu um forte sentimento de culpa que não se dissipou com o tempo ...

04 novembro, 2013

Poesia (uma por dia) - 62

San Juan Cheli
São os teus olhos

São os teus olhos
(atentos à sombra dos meus)
que sempre me devolvem
as letras de escrever rio. As sílabas

abertas, como asas, ascendem
à música dos ninhos
que tu nunca desistes de inventar
no inverno dos meus braços.

Soletra mais devagar
o sorriso, o beijo,
deixa cair no meu colo
a claridade que trazes nas mãos.
Preciso dela, bem o sabes,

para escrever estrelas
e afastar da noite
a morte.
Soletra mais devagar
Eternidade.

Lídia Borges, in "Seara de Versos"

03 novembro, 2013

Geração sentada, conversando na esplanada - 38 (Memórias, com bichos)

(ler conversa anterior)
"A menina dos seus olhos era a morgada, a filha, que o acariciava como a uma criança. A velha toda a vida o pusera a distância. Dava-lhe o naco da broa (honra lhe seja), mas borrava a pintura logo a seguir: - Ala! E ele retirava-se cerimoniosamente para o ninho."
Nero, in "Bichos" - Miguel Torga

"Os homens e os cães aprendem imensas coisas uns com os outros"


A Teresa, a Gaby e a Ana, disseram um "olá" em coro à chegada do filho da Zita acompanhado da mãe. Eu acenei e velho engenheiro também. O cão rafeiro levantou-se ligeiro e correu ao encontro do garoto e foi um grande abraço. Grande e prolongado e depois correram e brincaram um com o outro, ali por perto matando saudades de ausências.
- Hoje, se bem reparo, parece-me ter-se zangado com o Gonçalo. 
- Nunca faço rupturas definitivas... apenas não achei oportuno citá-lo nem espaço para metáforas tão cifradas...
- Fala de bichos!, adivinhava este reencontro?, e apontava ao longe a correria.
- Quem tem filhos, tem de ter bichos. E fica a memória de os ter tido. E depois prometi que falaria disso!
- Vai então escrever sobre seus filhos e seus bichos... 
- Filhas!, tenho três filhas eram elas as donas dos bichos, dei-lhes essa responsabilidade...
- Cães, portanto!
- Cães, gatos, pássaros, bichos-da-seda...
- Tudo isso? 
- O conhecimento de nós próprios, na nossa humanidade, passa por entendermos os animais...
Achei o meu tom de voz um pouco sentencioso e moralista. E era. Despedi-me com um aperto de mão e sem interromper as professoras. Ao longe a brincadeira interrompera-se para uma troca de afectos que me obrigou a parar para olhar. Depois fui embora, tratar do almoço (era o meu dia).

02 novembro, 2013

Poesia (uma por dia) - 61


A NOSSA ROMÃ ( 1 )

Nesta ilha de náufragos e jangadas imperfeitas as romãs abriam os lábios explodiam multidões. Os cães adivinhavam o brilho dos relâmpagos e tu caías abrupta nos meus braços.
Quando te ouvi assim a cair dos céus, desamparada a lubrificar a terra, não sabia o teu nome, muito menos como te beijar os pés.
Quando te vi assim pendente, incolor, nua de tudo, chamei-te um nome qualquer e tu chegaste a cântaros, tão líquida por entre os dedos.
Recebi-te quase ninfa, de braços abertos na minha escarpa e assim ficámos vagarosos instantes a respirar eternidades.
Ainda hoje não sei quem és senhora.
Trazias nos cabelos um mar desgrenhado a derramar estrelas em cânticos sibilinos, barcos do outro lado do cais.
Fiquei sem saber se existias de facto ou teria sido eu a inventar-te. Escancarei as janelas, acendi um fósforo no alpendre da casa, e tu lá estavas a cair dos céus, sem muros nem ameias, a cantar.
Visitavas museus, sombras de luz mas não eras simpatizante da luta de classes. Tinhas um Cristo crucificado nos olhos, uma vontade serena de liberdade, uma biblioteca onde se destacam textos apócrifos mas também vivificam Jorge Amado, Soeiro Pereira Gomes.
Se tivesse que te desenhar faria um gesto, um risco a carvão no ar que respiramos, bebia-te às mãos cheias e partia até ao fim do voo inventado, mas deixaria na tua árvore preferida uma romã.

01 novembro, 2013

Poesia (uma por dia) - 60

Noites Cálidas, de estio…
(Em decassílabo heróico)

Quando uma noite cálida se estende,
Tão suavemente, à luz da vela acesa,
No linho já estendido sobre a mesa
E, viva, essoutra chama em nós se acende

Crescendo num fulgor que se não rende
Pois vem duma alquimia que a beleza
Concede se munida da certeza
De uma força interior que se não vende,

Então surge o poema, esse indomado,
Como filho que em nós fosse gerado
Por cópula lunar de anjo bravio

Ou beijo pressentido e tresloucado
De alguém que nos tivesse abençoado
Com estro que emulasse ardor de estio…

Marianita Rocha (pseudónimo)

«Com este Orçamento do Estado votado no Dia de Finados, ninguém estranharia que os sinos dobrassem à hora da votação pela democracia que daqui sairá mutilada. E poderíamos até responder ao povo que lá fora exige democracia com a frase que inspirou Hemingway para o título de uma das suas obras: “não perguntes por quem os sinos dobram, eles dobram por ti”. Mas nós comunistas preferimos o desenlace da história e confirmaremos, também neste debate orçamental, que enquanto houver quem lute há esperança. Disse.»

(...e tudo o que disse pode ser visto e lido, aqui)