31 dezembro, 2014

Ah!, e não esqueçam: em 2015 façam o favor de nos fazer felizes


"Poema do Fim do Ano“

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Mora uma louca chamada Esperança:
E quando todas as buzinas fonfonam
quando todos os reco-recos matracam
quando tudo berra quando tudo grita quando tudo apita
A louca tapa os ouvidos
                                         e
                                                  atira-se
e – ó miraculoso voo! –

Acorda outra vez menina, lá em baixo, na calçada.
O povo aproxima-se, aflito
E o mais velhinho curva-se e pergunta:
– Como é teu nome, menininha dos olhos verdes?
E ela então sorri a todos eles
E lhes diz, bem devagarinho para que não esqueçam nunca:

– O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...
Mário Quintana in Poesias para a infância

28 dezembro, 2014

Geração sentada, conversando na esplanada - 79 ( "Mata-me com os mesmos ferros/Com que a Lira morreu")

(ler conversa anterior)
“o recluso pode receber, através do correio, uma encomenda por mês remetida pelas pessoas que estejam registadas como seus visitantes, com o peso máximo de 5 kg cada”
- artigo 127, n.º1 do Regulamento Geral dos Serviços Prisionais, Governo de José Sócrates
«Se esse regulamento existe, ele é absolutamente contra natura, não tem qualquer senso. Isso é uma violação dos direitos fundamentais. Eles não podem condicionar o recebimento de uma correspondência ou de uma encomenda. Por isso, se esse regulamento existe, ele é arbitrário, é inconstitucional e tem de ser revogado porque foi elaborado por uma pessoa que não tem o mínimo de senso comum. Isso não se faz!»
- António Arnaut à TSF.

A Gaby ia comentando o que ia lendo, mesmo se as outras a não estivessem ouvido. "Lindo". O rafeiro olhava-a com aquele olhar com que os cães olham as pessoas de quem gostam.
O engenheiro, tirou os olhos do jornal para me perguntar se eu já tinha preparado o meu balanço do ano. Respondi-lhe que nada havia que se tivesse passado que merecesse ser assinalado.
"Não me diga... nem as lutas por que luta?, nem o BES, nem o descalabro?, nem os zigue-zagues  do Costa?, nem a detenção do Sócrates? Nem..."
Interrompi-lhe a longa enumeração para lhe fazer sentir que eram coisas antigas, que já aconteciam antes deste ano e que terão continuação.
"A detenção do Sócrates, não!"
"Jamais falarei disso, como já em tempos disse, citando o Jerónimo!"
"Mas começou o post a falar no assunto!..."
"Se ler bem, reparará que é das suas leis parvas o que de facto falo!"
"Quem com ferros mata, com ferros morre?"
"Ocorreu-me a canção, esse ditado não!"

27 dezembro, 2014

Os "Rhynchophorus Ferrugineus" e a metáfora que faltava

Os "Rhynchophorus Ferrugineus" vão-se desenvolvendo num ciclo maligno. São os Rhynchophorus Ferrugineus-óvulo, são os Rhynchophorus Ferrugineus-larva, são os Rhynchophorus Ferrugineus-pupa e também os em fase já adulta. Estes, aos milhares, são esbeltos, bem falantes e espertos. Em datas certas usam cravos ao peito. A palmeira ignora aquilo e mostra-se frondosa, vistosa, como se não passasse nada. Na escala do tempo em que se expressam as metáforas, o fenómeno dura pouco. Na escala dos países, tal significa anos, por vezes décadas. É tarde quando  a primeira palma descai apodrecida e já sem vida. Na escala do tempo da metáfora, esse é o indício que, depressa, toda a copa perecerá. Na  outra escala, a nossa, é maior a demora. Dura muitos ciclos de óvulos, larvas, pupas e adultos. Dizem que nada há a fazer para os deter. A prova, dizem, é que se for encontrado um predador da praga, ninguém assegura que o predador não seja mais devorador. E o medo detém qualquer gesto salvador.

Só se nos apercebermos a tempo é que impediremos que a Palmeira morra. 
Morra de pé, como as árvores. Ou como as nações.

23 dezembro, 2014

Contagem final: só falta um dia para a Noite de Natal

Há perguntas que permanecem no tempo porque como resposta só lhes demos o silêncio. Um velho amigo, com quem partilho aos domingos prolongadas conversas, deixou-me o ano passado uma pergunta dessas, referindo-se ao seu presépio:
Há perguntas assim que continuam a pairar no ar. Não porque não saibamos que resposta lhes dar, mas porque a humanidade não as consegue impor

Cartão de Natal, Banksy (já editado no ano passado)

22 dezembro, 2014

Contagem final: a dois dias deste Natal

«Sonhar de humana vida um mundo que não há». Os poetas não escolhem as palavras ao acaso, "sonhar" foi a escolhida, podia ter sido "mentira". Mas nesse caso o poema não seria este meu cartão de Natal, nem Jorge de Sena o poeta escolhido.
(poema tirado daqui)

21 dezembro, 2014

Contagem final: a três dias deste Natal


Depois de um veio outro, e outro, e outro. Todos diferentes, todos iguais e o que se apronta só aparenta ser diferente na manha com que manipula e engana. É sem dúvida o chefe certo, o bem escolhido e o guardado para prosseguir o reinado:
«Mesmo um exame superficial da história revela que nós, seres humanos, temos uma triste tendência para cometer os mesmos erros repetidas vezes. Temos medo dos desconhecidos ou de qualquer pessoa que seja um pouco diferente de nós.»  
Cito o mesmo, do que já se encontra citado

20 dezembro, 2014

É Natal, façam o favor de nos fazer felizes!

Uns chegaram. Outros partiram e vão voltar, outros nem pensarão nisso... Guardo palavras, caras, sorrisos, máscaras, comentários. Guardo-os a todos e tenho-os no registo de terem passado. 
Muito obrigado. 
Eu sei que às vezes me "espalho", me excedo. Se pensam que me arrependo, esqueçam. Neste espaço nenhuma ofensa é deliberada, pensada e dirigida. 
Se erro?... É a vida.
Façam o favor de nos fazer felizes! 
Nota: Se faltar aí alguém, considere-se um não-ausente

19 dezembro, 2014

Contagem final: a cinco dias deste Natal

Entre a alegria e o desespero, meço o que escrevo. Meço a dimensão da palavra e do verso e da alma. E se valesse a pena o poema, não teria pena, por muitas penas que contivesse, de o lançar sobre o teu olhar.
Escrevo e, de seguida, apago tudo. O que queria escrever já está escrito, a cinco dias deste Natal, num outro postal.

18 dezembro, 2014

Só quero lembrar que o futebol é a coisa mais importante de entre as coisas pouco importantes com que nos devemos preocupar!


«Saindo da lição aos netos, fico pensando noutra que retiro para mim próprio: a alienação para ser eficaz precisa de ser praticada por gente capaz, pois só assim produz efeito. Mesmo que à custa de muito dinheiro. A imprensa, bem oleada, trata do resto.»
 Me assino, O Mouro 
(não confundir com o Mourinho)

17 dezembro, 2014

Redacções do Rogérito 21 - "Quando Um Homem Quiser"

Tema de redacção: "O NATAL"

A minha redacção bem podia ser uma carta mas estou confuso à farta por não saber a quem a dirigir se ao Menino de Belém se ao tal a quem chamam Pai Natal e esta dúvida que me inquieta também é por não saber qual a morada certa pois se soubesse a morada dos dois o assunto ficava arrumado e eu ficava muito mais descansado. 
Para quem não tenha compreendido porque tenho andado confundido eu digo que quando usava lacinho me diziam e juravam a pés juntos que quem nos ama punha os presentinhos debaixo da cama e imitavam assim os reis magos que traziam ouro incenso e mirra e eu achava a isso graça mas pouca piada aos presentes pois aquilo com que gostava mais de brincar era com coisas de imaginar cavalgar ou voar e não de presentes que de tão antigos e raros lhes perdemos o sentido e do uso o tino.
Depois veio o tal Pai que dizem que não é "de Natal" porque então seria igual a qualquer pai nem é "do Natal" pois não consta que o velho tenha tido qualquer filho mas eu bem sei que o Pai Natal é que tem um pai do qual ninguém fala para não desfazer aquele encanto que senhores da publicidade sabem tão bem fabricar que até se passou a vender em tempos mais água mineral e coca-cola e que agora se vende de tudo e até se dá mais esmola.
Para este trabalho de casa recomendou-me a sôtora para eu não me esquecer de dizer que esta é uma quadra santa onde a gente pede paz e não guerra nem faz maldades nem diz asneiras feias nem vê a casa dos segredos nem deve haver violência doméstica e deve-se sorrir ao pobrezinhos e dar-lhes saquinhos de massa grão arroz conservas e outras coisas para essa pobre gente compradas no Pingo e no Continente que são quase lugares santos que devemos santificar e que se escrever assim até os senhores do governo ficam a gostar mais de mim. 
Pensando bem e esperando que mereça mais que um suficiente nesta minha redacção se ela fosse mesmo a tal carta pedia ao Menino e ao Pai Natal que mandasse à mesma hora todos os do governo embora e que pusessem os senhores da publicidade a dizer que Natal é "Quando Um Homem Quiser". 
Rogérito
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16 dezembro, 2014

O Caso BES - II


«Ricardo Salgado falou verdade (...). O problema não teria rebentado se a ESI (holding de topo do BES) não fosse a crise. O que quis dizer foi que, não fossem os prejuízos resultantes dos resultados da área não financeira do GES, ainda hoje, o Governo, o Banco de Portugal, a CMVM, o ISP estariam calados, como sempre estiveram, a ver o banco desviar depósitos dos clientes para financiar o "empreendedorismo" da família Espírito Santo. Isso demonstra bem que todos consideram isso normal. Ou seja, o problema não está no facto de terem existido ao longo de décadas desvios de dinheiro que ascendem a muitos milhares de milhões de euros, o problema está no facto de ter corrido mal.»
Extrato do melhor que li, até aqui

14 dezembro, 2014

Contos de Natal - IV (Por não ter conseguido comprar um sorriso?)

(Conto inspirado por uma noticia antiga 
hoje cada vez mais repetida)


Há muito que abandonara o ter de estar a tempo para fazer o quer que fosse, ou estar com quem quer que seja. Contudo, se controlasse o tempo constataria que cumpria rigorosamente, à hora certa, a rotina que a ele próprio há muito se impusera. Só raramente sabia o dia, semana, mês em que fazia o que ia fazendo. Deixara, também, de se importar com essa escala do tempo. Ninguém lhe perguntava há quanto a filha partira. Se o fizessem não saberia responder. Nem há quanto lhe deixara ela de lhe escrever, ou telefonar. Ao principio sofrera com a partida como sofrera com a inesperada viuvez. Quando? Há cinco, há dez anos? Quase ao mesmo tempo em que deixou de medir o tempo, deixou de se importar com as ausências. Ao certo, ao certo, nem se dava pela sua própria presença. Era como se não existisse há cinco, há dez ou talvez mais anos. Era como se ele próprio tivesse partido. Já não ligava à Sua Alma nem mantinha aquele diálogo acalorado com o Seu Contrário, que a pouco e pouco se afastou do seu juízo. Estava só, até de si.

Naquele dia acordou sobressaltado. Na cama, tateou ao seu lado a procurá-la pois parecia ter sentido o seu calor, o respirar manso e o seu cheiro doce. Pronunciou o seu nome como num chamamento. Depois repetiu, e repetiu, enquanto se levantava e percorria toda a casa. Percorreu-a três vezes até confirmar que ali estava apenas ele.

Lavou-se e escanhou-se. Vestiu-se escolhendo, demoradamente, a roupa. Foi à gaveta e recolheu todas as moedas e uma nota pequena, tudo o que lhe restava da pensão magra. Guardou tudo sem contar nem se lembrar de quando vociferava contra ministros e políticos a quem acusava, a esmo, pelo seu empobrecimento. Saiu. Entrou no café ao fim da rua. Pediu um café. A empregada trouxe-o. Ele pagou com um generosa gorjeta, disse, "fique com o troco", e ficou à espera que se lhe alterasse o rosto. E nada, como resposta um seco "obrigada" e mais nada. Deixou passar algum tempo e pediu outro. Na altura de pagar colocou sobre a mesa tudo o que tinha. A empregada transfigurou o rosto, não no sorriso em que tanto tinha investido, mas num ar de surpresa com um misto de submisso agradecimento e uma exclamação "tanto?". Depois foi-se com um sumido "obrigada". 

Nos dias seguintes não comeu, a esperança de obter um sorriso amigo dava-me a energia necessária para cada caminhada. E andava, e andava. Sentou-se num banco, por baixo de uma arvore imensa de tronco desnudado. Apercebeu-se quanto o seu corpo estava frio de um frio que não sentiu. À sua frente apareceu então o sorriso, aquele que não procurava. A Morte estendeu-lhe a mão e disse "Anda". E ele foi.
Se controlasse o tempo, teria dado conta ter sido quase à hora e no mesmo dia em que o Menino nascia.

13 dezembro, 2014

NATAL, como se tivessemos nós presenciado tal nascimento...


"E agora?" ia ele perguntado à medida que ia fazendo. A avó lá ia dizendo, como se tivesse ela própria presenciado tal nascimento, ou fosse até o anjo. Todos os anos, desde sempre, as mesmas figuras, a cabana, o musgo e algo que possa fazer de lago, com os reis ainda do outro lado. E o presépio tomava forma. Depois foi a árvore. Bolas e fitas, fitas e estrelas, estrelas e luzinhas. 
"Bonito, isto!" disse. "Quando a Maria vir, vai gostar!" 
Já falta pouco para toda a família ver, e é essa a nossa mística: a família.
 (um dia contarei, ao Diogo e à Maria, como e quando o Menino passou de Jesus a Cristo)

10 dezembro, 2014

Caso BES


Contam-se por não sei quantos os convocados. Entre os que se vão sentar e os que irão ser referidos, serão muito mais que uma centena. Rostos que conhecíamos e outros que vamos conhecendo. A sala não tem o ar pesado dos interrogatórios e as caras, treinadas em iludir sentimentos, escondem corações e almas, que também são protegidos por hábeis falas. Por isso não os ficamos a conhecer melhor, apenas ficamos a poder ligar nomes aos fulanos a quem os nomes se reportam. Apenas os olhamos e sabemos todos os seus nomes. Apenas os olhamos.

09 dezembro, 2014

"O que a televisão não mostra não aconteceu" - tivesse Marcelo a força de Goebbels e essa seria uma verdade a pré-anunciar um futuro trágico. Mas aconteceu, e eu mostro...

Realizou-se, na sexta-feira passada, «o último dos debates temáticos inseridos na acção nacional do PCP a que demos o lema “Uma Política Patriótica e de Esquerda. A força do povo por um Portugal com futuro”
(...)Uma acção que não se limitou a fazer o diagnóstico da situação, nem se refugiou em estudos e estratégias tão difusas como distendidas no tempo para fugir ao compromisso político, mas que, pelo contrário, visou apresentar soluções, discutir políticas concretas e reflectir sobre uma verdadeira estratégia, politicamente comprometida, patriótica e de esquerda, para o desenvolvimento de Portugal.»

A - João Ferreira do Amaral, Professor, Lisboa - "Uma das maiores ameaças à independência nacional é o processo de integração europeia"

B - João Ferreira, membro do Comité Central e deputado do PCP ao Parlamento Europeu -Não é possível uma política alternativa sem a ruptura com os eixos centrais da integração europeia

C - Guilherme da Fonseca, Juiz Conselheiro -A Constituição e a soberania e independência nacionais

E - Pezarat Correia, General e Militar de Abril -"A soberania é o exercício da independência nacional"

08 dezembro, 2014

O aniversário do Mário e a desvalorização do discurso de António Costa


As palavras muitas vezes repetidas não se gastam. Não tenho a certeza se Mário Soares terá sido o primeiro a fazer escrever, em 1983, no texto do programa do IX Governo, a frase lapidar de o povo viver acima das suas possibilidades (página 4).  A certeza é que ela possuí uma longevidade transversal a todos os governos e presidentes da República. Cavaco Silva repetiu-a tal e qual quando, quase trinta anos depois, em Maio de 2011, discursava justificando a crise e a necessidade do tratado assinado com a troika. 
E como a longevidade das palavras ultrapassa a das caras, Costa não deixará de vir a ser influenciado por esse discurso quase permanente. O seu, o da viragem à esquerda, está mais que desvalorizado, pela presença de tanto convidado. Eles lhe lembrarão, em 2015, a ilicitude de que falava Mário, em 1983.

07 dezembro, 2014

Geração sentada, conversando na esplanada - 78 (90 anos de um homem que ficará na história, não pelo que fez mas pelos resultados dos seus feitos)

(ler conversa anterior)
«A televisão mente porque quem vê não decide a direcção que o olho toma em relação aos acontecimentos. Essa decisão está já tomada por outros - e é essa a decisão que é colocada à nossa frente. Ver televisão não é ver o acontecimento, é ver uma visão (uma outra visão, uma visão de outro).»
Gonçalo M. Tavares, hoje, no Notícias Magazine
«A Europa e o mar em frente
mapa de desdém e ranço,
olha para as mãos terrosas
deste povo que já não chora lágrimas de nuvens no céu,
bicho cálido
semeador de pátrias
que trava em fim sua batalha
num desafio
de querer dar terra a quem trabalha
para destruir o frio.

Entretanto
a Europa, na indiferença lilás
das civilizações melindrosas
- que faz?

Espera
que o terror do inverno disfarçado de rosas
atraiçoe a primavera»
José Gomes Ferreira, "Entretanto"
in Seara Nova/Outono 2014

A ponta de sol deu para aliviar a roupa. Se estava frio só um ou outro o sentiu. O velho engenheiro mexia vagarosamente o café, tão vagarosamente que até se esqueceu de o beber, certamente perdido em mil pensamentos. Levantou a cabeça para olhar o rafeiro mas foi a mim que se dirigiu - «Sabe? Só a má história se perde em todos os detalhes. Na História séria, o que ela regista são os resultados considerados marcos. Só eles interessam aos povos e aos vindouros. Os pormenores dos feitos, os discursos ditos, os livros escritos, são meras ilustrações a documentar o caminho trilhado para cada resultado... Hoje é aniversário desse homem e, para já, é esta Europa que nos deixará como legado, e esta democracia apodrecida, quando partir». Eu, que tinha interrompido a leitura do poema que estava a ler a ele regressei e bem alto li a parte final:
«Entretanto
a Europa, na indiferença lilás
das civilizações melindrosas
- que faz?

Espera
que o terror do inverno disfarçado de rosas
atraiçoe a primavera»

06 dezembro, 2014

O que me choca é desvalorização do reforço da esquerda parlamentar em nome de uma eleição inexistente. "Candidato a primeiro ministro"? Sinisto, isto!


Na imprensa, o que me choca não é o chavão, o soundbite, a frase feita. O que me choca é a frase curta, recém adoptada e que, se tivesse o povo o devido cuidado, a desdenharia por falta de significado. O que me choca é a ilusão da óptica. "Candidato a primeiro ministro". Sinistro, isto. Sinistro porque mistifica e desvaloriza o modelo constitucional, sinistro porque desvaloriza a composição parlamentar e induz a crença que todo o poder legitimamente se concentra numa só cabeça e esta só pode ser encontrada de entre os "partidos do arco do poder", essa outra frase sinistra.

04 dezembro, 2014

Olhemos para além dos rostos


Ah, se tudo se pudesse reduzir a uma questão de caras... olhemos, então, para além delas.
Para um, o congresso é um enorme colectivo que discute e assume ideias, compromissos, destinos, sob a forma de orientações e de programa. Para outro, o congresso é uma prova, que aglutina, funde, entrona, e onde as crenças substituem as ideias, dispensam  programas, omitem os compromissos. 
Os rituais, aos olhares menos atentos, quase se assemelham, mas na realidade são muito mais diferentes que as diferenças ostentadas nos sorrisos.
De um, dizem ser "a esquerda radical", do outro "ser do arco do poder". São dizeres que, de tanto repetidos, entram no ouvido e subjacente fica o medo e a ideia subliminarmente inculcada de que ao primeiro corresponde "um partido de protesto", como se o seu congresso se limitasse a um acto de luta e resistência. Para o outro, ser "do arco da governabilidade" é um estatuto independente de valores, pois outros, de valores supostamente inversos, também o são. A imprensa vende a expressão como marca, como garantia da qualidade afiançada e manutenção do paradigma, não como estigma, não como denúncia de continuação da ruína.
Podiam entender-se? Olhando-os, até parece meter raiva que o não tenham feito já. Mas tal é impossível. Pelos interesses que defendem, pelo funcionamento das suas "máquinas partidárias", pela coerência entre os discursos e as práticas. 
Resta ao povo a sabedoria das escolhas...

03 dezembro, 2014

A Municipalização da Educação, o PS de Oeiras e as orientações de António Costa

Marcados para a mesma data, ontem, dois eventos que relacionei, o do PS Oeiras, por iniciativa da organismo local para a educação, com um outro, convocado pelo sindicato dos professores, e que reuniu numa escola em Paço de Arcos. A relação que estabeleci parecia-me inevitável e lógica, estando Oeiras na calha para ser cobaia, natural seria que os professores do PS tratassem o tema, o colocasse à discussão e emitissem opinião. Ledo engano. Caladinhos que nem ratos, que isto de se guardar segredo é mesmo para levar a sério.
Mas passo a alguns detalhes:
Quando uma cara conhecida me viu, comentou admirada: "O Rogério aqui? Mas isto é uma iniciativa do PS!...", lá lhe disse o que me ocorreu dizer, pensando que podia ter sido pouco simpático confrontá-la com as orientações de António Costa e que a surpresa deveria ser minha ao saber que David Justino, consultor de Cavaco, era a estrela da noite. Mas como antes do que vai acontecer toda a esperança não é vã, calei-me. Quem sabe se a Odete João, ou a frugal Joana ou a Luísa Carrilho questionasse Justino?... Ledo engano, apenas a deputada, quadro da FAUL, confrontou Justino com uma afirmação sua - "Se é verdade que um professor nunca deve desistir de um mau aluno, dever-se-ia exigir que isso mesmo começasse pelo Estado". Ao ouvir, disse para Minha Alma, "boa malha!" e aplaudi. Verdade, eu um comunista "ortodoxo" a aplaudir uma socialista... quem diria? E se é verdade que, forçado por uma pergunta oportuna vinda da plateia, ficámos a saber o que Justino pensava da nomeação de professores por parte da autarquia, do PS nem uma palavra sobre tão momentoso tema. Talvez por pressão aconteça mais tarde. Quem sabe? E dizia um socialista desencantado por ver goradas as suas expectativas na conferência: "Vim, à espera de se gerarem conclusões de forma a contrariar o paradigma neoliberal imposto pelo actual ministro. Infelizmente não foi isso que aconteceu!"
O mesmo digo eu, que esperava que me fossem respondidas todas as questões!
Ai se não forem os professores...


Extrato da moção aprovada no plenário do Sindicato doa Professores da Grande Lisboa

NOTA: Todas as citações são de memória

01 dezembro, 2014

Restauração? Qual Restauração?



No 1º de Dezembro de 2009 entrou em vigor o Tratado de Lisboa. Depois de um propalado "porreiro pá", foi o que se viu e sentiu e o que se continua a ver e a sentir. Num futuro próximo (e que seja já amanhã) quero dois feriados, um para cada Restauração.
(acho que António Costa não se referiu a nada disto, o que é um mau indício). 

30 novembro, 2014

Geração sentada, conversando na esplanada - 77 (A municipalização da educação e a escola pública destinada aos pobrezinhos)

(ler conversa anterior)
«Um professor é um decisor: alguém que, a partir do que se encontra determinado superiormente, tem a obrigação de escolher, em liberdade e com sentido de responsabilidade, de entre as possibilidades de acção aquela que, num determinado momento, se afigura mais adequada na concretização do que é o Bem em termos de educação formal. Negar-se esta faceta ao professor, que é a matriz da sua função, é negar a sua existência. Mais honesto seria acabar-se, de vez, com esta profissão!»
Helena Damião, in De Rerum Natura
«...E David Justino, (...) mostra-se entusiasmado com a municipalização do ensino, em experiência anunciada. Estou cansado de ver ex-ministros colarem-se, depois de saírem de funções, à bondade de políticas que poderiam ter executado. A descentralização de que o sistema carece é por via autonómica efectiva das escolas, que nenhum dos ministros de que falo teve coragem de promover. Mas não precisa de municipalização, metáfora do Estado Novo II para substituir um monolitismo por vários caciquismos. »
Santana Castilho, in Público

«Municipalização da educação? Digam-me uma única vantagem para a comunidade educativa, para os alunos, e eu terei de concordar com a solução.»
Director de um importante agrupamento escolar do Concelho de Oeiras

Tínhamos combinado, eu e o velho engenheiro, que não falaríamos nem de justiça, nem de detenções, nem de entronamentos e congressos, e, por isso, estávamos calados, rebuscando assunto. As professoras chegaram e falavam acaloradas. A Ana estava exaltada, a Gaby pousou a mala e elevava a fala. O rafeiro do velho engenheiro agitou-se a até ganiu, de incomodado com a enxurrada de palavras quase gritadas. Mais calada estava a Teresa, mas também ela transtornada. Eu e o velho trocámos olhar interrogativo como que questionando o que seria aquilo. Não foi preciso esperar muito. «O director deveria reunir connosco! Partilhar as preocupações, ouvir-nos...» dizia uma, para outra argumentar «Não o culpes, tudo isto tem sido tratado entre o Ministério e a Câmara, em segredo. Numas reuniões está, noutras nem é convocado». E lá fomos percebendo que se tratava da imposição da municipalização do ensino. A dada altura, sentencia a Teresa, com voz calma e firme: «Se não for afastada a essa ideia de as autarquias receberem prémios por conta da eficiência, dispensando professores a troco de uns apetitosos trocos; se os conselhos municipais de educação tiverem de ganhar um protagonismo novo, e se as suas competências forem conflituar com as dos actuais Conselhos Gerais; se passarem para a competência das câmaras, competências que hoje são atribuições da escola, conflituando com a autonomia que hoje detêm; se as Direcções da escola passarem a ter de reportar decisões que hoje não reportam a ninguém; se, de mansinho, as câmaras se apossarem da responsabilidade pelo pessoal docente; se o pessoal não docente for gerido à distancia, administrativamente, por autarquias sem a garantia de que essa tutela esteja habilitada para o efeito. se tudo, ou parte disso, acontecer, a Escola Pública vai morrer»
- «E tudo começou com a Milú»
- «Lá estás tu!»
Nesta altura eu e o velho engenheiro resolvemos romper com o nosso acordo e lá começámos a falar sobre o congresso e sobre o que lá se disse...

28 novembro, 2014

A Mafalda deixou de ler a necrologia...

A Mafalda deixou de ler a necrologia.
Concluiu que a justiça está viva e não lhe parece que pereça
(da primeira página do jornal i, hoje às 19h)

27 novembro, 2014

O Cante, ainda e sempre




Águia (do monte ao mundo)

Reeditado de um post de Abril 2012, com alterações

ÁGUIA

Minha alma Celta se inquieta
Meu coração Luso pulsa, de repulsa
Meu sangue Mouro, da memória desperta
enquanto uma águia cruza, altiva, o monte e a planura

Não me limito à geografia de estar
Não sou estas fronteiras
Europa? Não sou de um só lugar
e para viver que se procure outras maneiras

Somos de todos os ignorados lados
Somos de mares antes navegados
Somos, do monte ao mundo
Rogério Pereira, um miscigenado 

25 novembro, 2014

Poesia (uma por dia) - 72



A MULHER QUE CHORA BAIXINHO

A mulher que chora baixinho
Entre o ruído da multidão em vivas…
O vendedor de ruas, que tem um pregão esquisito,
Cheio de individualidade para quem repara…
O arcanjo isolado, escultura numa catedral,
Syringe fugindo aos braços estendidos de Pan,
Tudo isto tende para o mesmo centro,
Busca encontrar-se e fundir-se
Na minha alma.
Eu adoro as coisas
E o meu coração é um albergue aberto toda a noite.
Tenho pela vida um interesse ávido
Que busca compreende-la sentindo-a muito.
Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo,
Aos homens e às pedras, às almas e às maquinas,
Para aumentar com isso a minha personalidade.
Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio
E a minha ambição era trazer o universo ao colo
Como uma criança a quem a ama beija.

Álvaro de Campos

24 novembro, 2014

O Público, o "sexagenário metalúrgico" e um partido que não carece de ser regenerado...

Público, em Espanha. Esperava o quê? 


Bem podia o artigo explicar algumas razões do que lá foi escrito.
Designadamente isto, dito ontem, pelo tal "sexagenário metalúrgico":
"Nós temos uma proposta de política alternativa inseparável de uma alternativa política capaz de a construir e concretizar, valorizando a luta dos trabalhadores e do nosso povo e apelando à convergência de democratas e patriotas, consideramos que só o reforço do PCP pode ser o pilar da política alternativa. Partido de luta e proposta, partido sério com uma só cara que honra sempre a palavra dada. O que dizemos neste salão é o mesmo que dissemos na Assembleia da República e em todo o lado. Temos um projecto, temos um ideal e temos uma forma diferente de estar na política porque nós, Partido Comunista Português, estamos aqui para servir os interesses do povo e do país e não para nos servimos a nós próprios. Partido que está em condições de assumir as responsabilidades que o povo português lhe entenda atribuir, incluindo responsabilidades governativas. Partido que com o seu projecto e o seu ideal assume-se como portador da esperança por uma vida melhor num país mais desenvolvido e progressista".

23 novembro, 2014

Geração sentada, conversando na esplanada - 76 (no limiar do Estado de Corrupção Geral)

(ler conversa anterior)
«Veio enfim um tempo em que tudo o que os homens tinham olhado como inalienável se tornou objecto de troca, de tráfico, e podia alienar-se. É o tempo em que as próprias coisas que até então eram comunicadas, mas nunca trocadas; dadas, mas nunca vendidas; adquiridas, mas nunca compradas - virtude, amor, opinião, ciência, consciência, etc. - em que tudo enfim passou para o comércio. É o tempo da corrupção geral, da venalidade universal"»
Karl Marx, in "Miséria da Filosofia", 1847

«João Cravinho não esconde a sua desilusão. Autor de um pacote legislativo que deixou no Parlamento antes de ir para Londres para a direcção do Banco Europeu para a Reconstrução e Desenvolvimento, viu as suas propostas serem rejeitadas pela sua própria bancada, a do PS.»
Rogério Pereira, In "Reconstituíndo um post roubado...", 2011

«Recusamos comentários com componente de julgamento»
Jerónimo de Sousa, ontem in "Notícias ao Minuto"
 


Estávamos, eu, o velho engenheiro e o seu cão rafeiro, abrigados no alpendre. Chovia copiosamente. As nuvens negras eram dissuasoras de promessas de sol e já tínhamos desistido de nos sentar a conversar. Falávamos ali, de pé e sem desgrudar, como quem cumpre o ritual de rever as notícias da semana. Quando lhe disse o que pensava escrever, ele fez um silêncio prolongado, para depois comentar: "Citar Marx, Cravinho e Jerónimo?, faz sentido. Está tudo ligado". Depois, referindo-se ao post de ontem "Sabe?, uma televisão assim, ajuda muito. Ao seu post sem nome bem podia dar o título No limiar da Corrupção Geral. É com a destruição dos valores da educação, que a corrupção grassa e se instala"...

22 novembro, 2014

Não consigo encontrar um título para isto...

Cada dia que passa é um dia a mais que tarda
E se tardar muito, tudo estará irremediavelmente perdido
Ah, e não falo da espuma dos dias...

21 novembro, 2014

E alguém chegou e veio dizer "Eu não quero o PS que o Assis quer", mas acho que é mesmo esse que vai ter que levar em cima... a menos que o povo rompa com tão má sina!


Nesta semana, que amanhã finda, mantém-se a sina não lida e traçada na palma da mão, como reza o fado. Em 66 notícias, não consta que António Costa tenha desmentido Assis, nem retirado campo para o que Assis diz.
Miguel Macedo, terá sido referido por um churrilho de elogios a um gesto que se quer fazer passar digno.
Pedro, Aníbal e Paulo fizeram aparições em todos os momentos e ocasiões. A receita seguida pelas TVs, é simples: caras mil vezes repetidas passam a ser caras queridas. E teremos que levar com elas em cima.
A menos que o povo rompa com tão má sina...

20 novembro, 2014

Pois, esse PS também eu queria. Ou um Podemos.


Eu sei que muito boa gente, e alguma da que me lê, gostaria que entre a "família" (tida) de esquerda houvesse diálogo ameno e pontos de entendimento e que a unidade fosse uma realidade que pautasse orientações por outros caminhos.
Pois, só que há reflexões que ficam por fazer e querer não é poder. Brincando com as palavras, diria, que o que dava jeito era mesmo um Podemos... mas que Podemos? O do Boaventura Sousa Santos, da leitura que ele faz ignorando o seu programa? É que lendo o Programa Económico do Podemos, podemos encontrar convergências para um entendimento patriótico e... de esquerda. 
Acho que Assis, mais ainda que o Santos, percebe o perigo disso, quando hoje desanca um jovem quadro do PS. É que ele, sem citar o Podemos, ficou arrepiado com o que disse o jovem quadro:
«...a ‘proximidade ideológica’ que Assis vê entre PS e PSD é para mim um mistério. Eu quero um PS concentrado na recusa do tratado orçamental, numa reforma fiscal que pese mais no capital do que no trabalho, numa revisão profunda do Código do Trabalho, na recuperação da iniciativa estatal, na regulação económica sobre sectores-chave, na renegociação da dívida impagável. E isto não é retórica, é mesmo para ser feito. O país está cansado dos discursos vazios, cheios de esquerda na lapela e que depois se limitam a governar para a gestão da situação...»
Pois, esse PS também eu queria. Ou um Podemos.

19 novembro, 2014

Carlos do Carmo e as palavras mais belas que alguma vez o mundo terá ouvido

 Para ouvir, clique em RTP 1976
Não sei se o Carlos do Carmo logo, falando do seu trabalho, falará da repartição da sua vida e do pão. Não sei se agradecerá ter-lhe, o fado, traçado o feliz destino de ter dado voz às palavras mais belas que algumas vez o mundo terá ouvido. Não sei se agradecerá a todas as vozes que lhe agradeceram a carreira de uma vida inteira e se fará referência a gestos canhestros ou à omissão caseira de gente que não presta. Só quero assinalar que foi por sua voz que ouvi a melhor definição para o que julgara indefinível - o amor - nessa "Estrela da Tarde" que nos povoa a memória.
Esta a minha homenagem, para além da espuma dos dias que por vezes tolda o passado.

18 novembro, 2014

Diabo Na Cruz (Bonito, Isto!)

Clique em "LISTA DE REPRODUÇÃO"
LUZIA 
Ouve os foguetes, Luzia
Eu vim às festas da senhora da agonia
Para te encontrar
Larga o estágio e os deveres
Faz-te à sorte que tu queres
É hoje Luzia que tudo vai mudar
 
Diz ao teu pai que não percebes este mundo
A que foste condenada
Conta à tua mãe que isto agora é prego a fundo
Tu não podes estar parada
Bora! Bambora! Vambora! Bora!
Vem comigo Luzia
É o nosso tempo que nos chama
Com o cerco que agora se anuncia
Há-de vir um novo dia
Pra escrevermos outra trama
 
Os moços que riem nos barcos
Não vieram pela santa
Vão descalços
Têm tanto a esquecer
Tu e eu queremos algo
Que há quem diga estica a conta
Quem sabe, Luzia
Se é a nós que a vida quer 
 
E se as correntes todos sabem estão à beira
Mesmo à beira de quebrar
À nossa frente já se veem as portadas para um mundo a começar
Bora! Bambora! Vambora! Bora!
Vem comigo Luzia
É o nosso tempo que nos chama
Com o cerco que agora se anuncia
Há-de vir um novo dia
Vem escrever uma outra trama 
 
Ao alto bombos
As ruas cheias de flores
Pelos becos vão gentes amansando suas dores
Todos renegados, aturdidos
Sem certezas
É esta a nossa hora, Luzia Vianeza
E se o teu pai não aceita, desconfia
Do que eu tenho pra te dar
Ele que saiba que eu trabalho noite e dia
Pelo roque popular
Bora! Bambora! Vambora! Bora!
Vem comigo Luzia
Vem comigo Luzia
Vem comigo Luzia
Oh, vem comigo Luzia

17 novembro, 2014

LuxLeaks, sed lex


Encontro com Micro, Pequenos e Médios Empresários

O meu título é lixado e carece de ser decodificado.  Com o meu LuxLeaks aponto que o dito cujo, embora se refira ao Luxemburgo, é comum a muitos burgos e o que lá se passa é a lei (sed lex) que impera para amealhar dinheiro no mundo inteiro. Sobre a propriedade dos amealhadores, ouvi falar aos extorquidos. Foi Jerónimo, num discurso exemplar, em que, num aparte, nos explica a escala de medida dos roubos que se programam:
«De facto, estamos perante um escândalo. Portugal vai receber 26 mil milhões de euros de fundos, e vai pagar no mesmo período 60 mil milhões de euros de juros, em grande parte às entidades europeias!» e num aparte «Barroso deu a notícia da tal "pipa  de massa", mas escondeu que para a receber teremos que entregar 3 pipas de volta» 
Jerónimo de Sousa
Ao meu lado, o velho operário-encadernador-de-obras-que-mereciam-ser-encadernadas, proprietário de uma oficina que já conheceu sonhos e melhores dias, desabafa: "Mas isto não pára?"

16 novembro, 2014

Geração sentada, conversando na esplanada - 75 (o "The Voice Kids" e a queda que faz subir audiências...)

(ler conversa anterior)
"E o mar bramindo / Diz que eu fui roubar / A luz sem par / Do teu olhar tão lindo"
Amália, "Canção do Mar"

"Podemos, se queremos, carregar na mochila da escola tudo o que ela pode levar. E a criança leva. Leva até não poder carregar e se cair pode-se levantar. Ou não. Depois vamos aliviar a carga. Só nessa altura percebemos que não levava nada que lhe fosse útil. É nessa altura que ficamos alarmados. Mas já aconteceu a queda"
Eu, ao Bruno, num dia destes, a caminho da Casa do Alentejo
A Gaby, do outro lado da esplanada como lhe era costume, ocupava-se com o seu tablet. A dada altura, com voz embargada comentava o que via. A lágrima testemunhava o que sentia. Apenas balbuciou  "Entram pelo prazer de cantar e com a ambição de ganhar, saem com a consciência de uma nova experiência..." e não a qualificou. Pouco depois toda a esplanada percebeu de que falava. "Treinam-se para competir na selva. A canção cantada não passa de uma metáfora..." disse alguém.

15 novembro, 2014

José Casanova, in Memoriam (1939 - 2014)


Por vezes temos o sentimento de que há homens que gostam de nós, tanto, como nós gostamos de nós próprios. Eu sei que, sendo sentimento, pode bem ser exagero. Mas falando do Zé, o que parece é. Ele gostava mesmo das pessoas, num gostar genuíno. E era nessa Humanidade que alicerçava a força para a sua luta.  Morreu, mas não partiu. Jamais deixaremos partir os nossos mortos!

Na memória, por tudo o que ele foi.

14 novembro, 2014

Os dias. O "Dia Nacional da Indignação, Acção e Luta" e "O DIA EM QUE O GOVERNO NÃO CAIU"


(...)
Dizes tu: que esperaste muito tempo.
Que já não podes ter esperanças.
Que esperavas tu? Que a luta fosse fácil?
Não é esse o caso: a nossa situação é pior que tu julgavas.

É assim: se não levarmos a cabo o sobre-humano,
estamos perdidos.
Se não podermos fazer o que ninguém de nós pode
exigir, afundar-nos-emos.
Os nossos inimigos só esperam que nós nos cansemos.
Quando a luta é mais encarniçada é que os lutadores
estão mais cansados.
Os lutadores que estão cansados de mais,
perdem a batalha.»

Bertold Brecht
"Pessoas detidas são 11. Presidente do Instituto de Registos e Notariado. Director-Geral do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. Secretária-Geral do Ministério da Justiça. Buscas no Ministério do Ambiente. Buscas no escritório de Luis Marques Mendes, Ana Luisa Figueiredo, Miguel Macedo e Jaime Couto Alves Gomes, uma empresa de consultoria e gestão.24 horas de Governo de Portugal. (...) E neste dia o Governo não caiu. Ninguém se demitiu. Nenhuma entidade pediu responsabilidades. O Presidente da República não dissolveu a Assembleia da República. O Primeiro-Ministro continua a ser Passos Coelho. O Ministro da Economia ainda é Pires de Lima. O Vice Primeiro-Ministro ainda é Paulo Portas. A Ministra da Justiça ainda é Paula Teixeira da Cruz. O Ministro da Saúde ainda é Paulo Macedo. E por aí fora."
"No dia em que o governo não caiu", os entretantos  são tantos

13 novembro, 2014

Manoel de Barros - In Memoriam (1916 - 2014)


Os deslimites da palavra

Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu
destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas

12 novembro, 2014

A ilusão: um só homem pode, um povo não

A imagem desmente o título?
Folhei-se atentamente um jornal, não importa qual, e percebe-se como se manobra de forma a que o rebanho permaneça manso. Manso e crente. Cada título é um hino ao individualismo, ao rasgo individual e à fulanização. As caras e o nomes mascaram decisões colectivas ou parecem sobrepor-se as estas, como se as organizações que representam não passassem de meros grupos de seguidores, gente cega e sem vontade própria. Não é verdade, cada partido serve interesses de classe ou grupos de pressão. 
O que lemos distorce a realidade e cria a ilusão de que um só homem pode, o povo não. O processo eleitoral é algo de lateral, subsidiário e formal. O poder conquista-se antes da chegada às urnas com o rebanho arrebanhado.  
No entanto, há vozes que se vão juntando.

11 novembro, 2014

S. Martinho baralhou-se porque lhe baralhei a lenda...

(reeditado)

Conta outra lenda (que agora mesmo inventei)
que foi neste dia feita rica oferenda,
a Baco, Deus verdadeiro. (como verdadeiros são todos os deuses)
A oferenda reunia um vinho divinal e um cesto de bela, doce e fresca fruta.
Tomou o gosto ao vinho e procurou, procurou, procurou...
Não encontrou, no meio de tanta,
que desgraça tamanha,
nem um única castanha!
Ia morrendo de raiva, de ira, de susto!
E por ter tão fraco magusto decretou que ninguém mais nesta data bebesse vinho, nem bom nem mau, nem sequer surrapa.
Seus súbditos e outros seguidores da fé
tementes a Baco, inventaram bebida estranha que dá pelo nome: "Água-pé"


Imagem de Baco, tirada daqui
(Claro que tudo isto é treta,
depois da jeropiga já nem sei o que diga...)

10 novembro, 2014

"O próprio Stravinsky gostaria certamente de ouvir isto"


Dizia à Maria Eu, eu a ela, que tinha o condão de ver o som e que isso era tão bom. Disse-me que eu era poeta. Não sei se o sou. Apenas me lembrava de ter visto "o pássaro de fogo" e o que se vê num abraço, a seguir a um improviso. Só isso!

Este vídeo é reeditado
 e, hoje, o título 
é de um comentário lá deixado

09 novembro, 2014

Geração sentada, conversando na esplanada - 74 (descendo ao nível dos galináceos...)

(ler conversa anterior)
 «A lição que pessoalmente extraio do admirável acontecimento (mais do que uma lição será um voto) é que, a partir de agora, nenhum muro mais seja levantado antes de se buscarem, incansavelmente, as soluções que o possam evitar. Isto é, que se trabalhe e eduque para a paz e não para a guerra. Só espero que as mesmas multidões que derrubaram o Muro de Berlim não se lembrem um dia de voltar à rua para aplaudir, num contexto político diferente, outros muros e outras fortalezas: como sabemos, a espécie humana não é muito de fiar...»
José Saramago, numa Homilia minha

«Eu cresci na década de 1980, vi o muro de Berlim cair. É frustrante ver como está Portugal agora, percebe-se que tudo regrediu.»
Valter Hugo Mãe, entrevista à Veja

Entre uma bátega de água e uma aberta, em que o sol espreita, o rafeiro do senhor engenheiro corre divertido atrás do pombo. Nesse corre e esvoaça, o pombo parece, quando pousa, fazer-lhe pirraça, num desafio para que o "corre e esvoaça" continue. Eu e o velho engenheiro abrigámo-nos da chuva mas não regressámos à esplanada quando voltou o sol. O espaço está alagado. Estávamos assim, resguardados, silenciosos e sem comentar o tempo, quando ele pega no tema: - "Muros, muros... sabe o que eu acho?, é que depois da queda do outro, a cada um foi construído outro muro à sua volta, pouco alto, de pouco mais de um palmo, mas onde faltam coragem e discernimento para levantar um pé e passar para o outro lado".  Primeiro fiquei calado, depois ocorreu-me dizer "Às galinhas, meu amigo, basta um circulo. Um circulo desenhado no chão, e comportam-se como se estivessem sitiadas!" Foi a vez de ele se calar, e ficámos assim a olhar o jogo do "corre e esvoaça" num momento em que o pombo quase se deixava apanhar e a pensar em muros, o caído e os que desde então se ergueram...

08 novembro, 2014

"Lisboa Games Week": E quem diz que a droga (pesada) não está legalizada?

Quando há dias afirmava que «A cultura de guerra desenvolve-se sem que "ninguém" se dê conta...» e depois perguntava «Ó Paul onde deixaste o nosso "All You Need Is Love" ?» estava longe de pensar estar em vésperas do «Lisboa Games Week» e das ligações entre tudo isso e uma "nova" epidemia...

Ébola? Legionela? Sim, são perigos evidentes. Os outros perigos soam (ainda) baixo e sem (ainda) qualquer relação com o tal "Admiravel Mundo Novo":

«... As histórias repetem-se, porém, e soam familiares aos pais. Alguns adolescentes deixam para trás um percurso académico de bom nível para se fecharem no quarto a jogar computador dia e noite. Há amizades de infância que são postas de lado em detrimento do contacto online. O isolamento em relação à família, as mudanças de comportamento, os casos de violência inexplicável face ao insucesso num jogo digital ou à proibição de continuar ligado são outros comportamentos comuns.
(...) Os números a que chegou a equipa de Ivone Patrão no ISPA dão uma outra camada de leitura desta realidade. Há quase três quartos (73,3%) dos jovens que apresentam sintomas de viciação na Internet. Destes, 13% exibem níveis severos de dependência, que se manifestam através dos comportamentos mais extremos descritos pelos pais e referidos pelos investigadores. Os próprios jovens parecem ter noção disto, uma vez que mais de metade (52,1%) dos inquiridos se percepciona como “dependentes da Internet”.»
in Jornal Público 
Vá!, consuma, o desígnio é de delírio lúdico e (dizem) educativo...