31 agosto, 2014

Há textos assim, que até parecem escritos por mim


A Maria é a neta mais nova, filha da minha filha mais velha e a foto é de ontem. 
Entre a idade dela e a idade da sua mãe, há toda uma prol da qual já vos falei. Tenho vários escritos, mas vem a propósito de um belo texto recebido de um amigo referir o «Lembranças de um pai de filhas...» e, também, «O dia do sogro...»

O texto hoje recebido (o tal que parece por mim escrito):
«Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.

É que as crianças crescem. Independentes de nós, como árvores, tagarelas e pássaros estabanados, elas crescem sem pedir licença. Crescem como a inflação, independente do governo e da vontade popular. Entre os estupros dos preços, os disparos dos discursos e o assalto das estações, elas crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância.

Mas não crescem todos os dias, de igual maneira; crescem, de repente.

Um dia se assentam perto de você no terraço e dizem uma frase de tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura.

Onde e como andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu? Cadê aquele cheirinho de leite sobre a pele? Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços, amiguinhos e o primeiro uniforme do maternal?

Ela está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil. E você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apareça. Ali estão muitos pais, ao volante, esperando que saiam esfuziantes sobre patins, cabelos soltos sobre as ancas. Essas são as nossas filhas, em pleno cio, lindas potrancas.

Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão elas, com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros ou, então com a suéter amarrada na cintura. Está quente, a gente diz que vão estragar a suéter, mas não tem jeito, é o emblema da geração.

Pois ali estamos, depois do primeiro e do segundo casamento, com essa barba de jovem executivo ou intelectual em ascensão, as mães, às vezes, já com a primeira plástica e o casamento recomposto. Essas são as filhas que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias e da ditadura das horas. E elas crescem meio amestradas, vendo como redigimos nossas teses e nos doutoramos nos nossos erros.
Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.
Longe já vai o momento em que o primeiro mênstruo foi recebido como um impacto de rosas vermelhas. Não mais as colheremos nas portas das discotecas e festas, quando surgiam entre gírias e canções. Passou o tempo do balé, da cultura francesa e inglesa. Saíram do banco de trás e passaram para o volante de suas próprias vidas. Só nos resta dizer “bonne route, bonne route”, como naquela canção francesa narrando a emoção do pai quando a filha oferece o primeiro jantar no apartamento dela.

Deveríamos ter ido mais vezes à cama delas ao anoitecer para ouvir sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de colagens, posteres e agendas coloridas de pilô. Não, não as levamos suficientemente ao maldito “drive-in”, ao Tablado para ver “Pluft”, não lhes demos suficientes hambúrgueres e cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas merecidas.

Elas cresceram sem que esgotássemos nelas todo o nosso afeto.

No princípio subiam a serra ou iam à casa de praia entre embrulhos, comidas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhas. Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de sorvetes e sanduíches infantis. Depois chegou a idade em que subir para a casa de campo com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma aqui na praia e os primeiros namorados. Esse exílio dos pais, esse divórcio dos filhos, vai durar sete anos bíblicos. Agora é hora de os pais na montanha terem a solidão que queriam, mas, de repente, exalarem contagiosa saudade daquelas pestes.

O jeito é esperar. Qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco. Por isso, os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável afeição. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto.

Por isso, é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que elas cresçam.»
"Antes que elas cresçam" 
Agradeço ao Cid Simões tão belo texto

28 agosto, 2014

Herdeiros de Goebells... são tantos e passeiam-se como santos


É uma frase datada, que só não se mantém actual porque foi ultrapassada pelo sistema e pela persistência do "modelo Goebbels" e do seu uso, na manipulação diária pelos "média".
Hoje, pouco interessa que a mensagem, o discurso, a imagem ou o desempenho na entrevista, sejam verossímeis ou adequadas à realidade. O que é necessário é que, mesmo não acreditando, o receptor fique agradado. Mesmo que o que seja dito ou mostrado seja uma mentira, o que conta é que o dito seja bem dito (de preferência acompanhado de um convincente sorriso), o que seja escrito seja gratificante, e o que seja mostrado desperte uma (qualquer) emoção. 
E que se cuide quem tiver a ousadia de apontar o conteúdo absurdo. No mínimo recairá sobre ele o mais severo ostracismo.

Sobre as estratégias de manipulação através da imagem, ver também este post

26 agosto, 2014

25 agosto, 2014

Nós somos os amigos que temos!


Beber um copo, conhecer um "conhecido", conversar sobre o que quisesse, era suficientemente aliciante e importante para aceitar o convite do Fernando Cid. Dele, apenas lhe conhecia o amor à poesia e a militância colocada na sua divulgação. Não conhecia até onde humildade lhe ia, a ponto de ele esconder que se tratava do seu aniversário. Os que sabiam foram coniventes naquela omissão ou não fosse a cumplicidade a regra sagrada da amizade. 
À minha chegada, a apresentação dos que estavam ia-se fazendo com troca de sorrisos depois do anfitrião dizer, com um gesto alargado: "é tudo gente boa". E passado pouco tempo íamos trocando palavras falando sobre tudo: sobre poesia (sem meter no mesmo saco Alegre, Ary e Sophia); sobre a net e o facebook, considerando este o eucalipto que vai secando tudo à volta, tal e qual as grandes superfícies secando o pequeno comércio, onde as pessoas conversavam com tempo e com afecto; sobre o comportamento dos pássaros que fogem dos espelhos, da luz brilhante e reflectida como se lhes corresse risco a própria vida; e da excepção do melro.  Falando de melros, Fernando Cid lembrou Guerra Junqueiro e perguntou-me se conhecia "O Melro", quase envergonhado por me ter perguntado. Disse-lhe que sim e que já o tinha citado lá no "Conversa". 

Depois, depois foi um desbobinar de memórias da juventude daqueles homens (e também da minha). Do papel que cada tinha tido na cultura e na resistência, do trabalho extraordinário das colectividades da margem sul, sem exaltar outra coisa que não fosse a gratificante adesão do povo de então. 
"Sem o trabalho de homens assim, não teria acontecido Abril. Sem este legado, não seria possível construir a Festa", pensei.
Quando me despedi com um abraço, Fernando Cid, se despedia e dizia: "Espero que tenha gostado, eu sou isto: eu e os meus amigos!"
"Somos os amigos que temos!" - respondi.
_____________
NOTA: Fernando Cid Simões ofereceu-me um DVD editado pela Câmara Municipal de Almada com depoimentos alguns deles lembrados no encontro a que se refere este post. A leitura do texto e a audição dos depoimentos foram determinantes para que ficasse aqui esta crónica. Do site da CMA:
A capacidade de recordar e o prazer de ouvir: a resistência como elemento identitário da memória colectiva
Produzido no âmbito do projecto de Arquivo Oral do Museu da Cidade/Divisão de Museus e Património Cultural, pretende constituir um documento de divulgação das memórias centradas nas formas de resistência em Almada ao regime do Estado Novo que, durante os 48 anos de Ditadura, influenciaram o ambiente político, cultural e social de várias freguesias do Concelho.

Optou-se por construir uma peça única em que, ao documentário em dvd estivesse associada uma pequena brochura que explicita a organização temática do guião de recolha, com a transcrição de excertos das vozes que ouvimos, onde são apresentados os interlocutores e onde se disponibiliza, em complemento uma cronologia dos principais acontecimentos desse período, tornando mais fácil a contextualização das memórias e das histórias contadas.

No seu todo, pretende-se oferecer ao público em geral e às gerações mais novas, em particular, um esboço do que foi Almada em meados do século passado; quais as expectativas e aspirações de vida dos jovens dessa época, porquê e como surgiram, foram alimentadas e reproduzidas as estratégias de oposição política e quais os seus protagonistas, as figuras que hoje, embora tendo perecido, continuam presentes através da toponímia das nossas ruas e na memória destas vozes e das histórias que agora convidamos a ouvir.

O que resulta deste trabalho é apenas uma parte da história da resistência ao Estado Novo em Almada, reflexo directo da experiência de vida dos 20 entrevistados. Estas vozes da resistência terminam a sua história no dia em que a liberdade foi alcançada, a 25 de Abril de 1974.

Estas vozes fazem-se eco de muitas outras, cuja importância e urgência de registo se mantém e prossegue no âmbito do trabalho do Arquivo Oral em curso. 
Índice do brochura:
1. Eu deixava um baile por um livro: o despontar de uma consciência social
2. Revoltados e revolucionários: a oposição como raiz de uma identidade colectiva
3. Foram presos muitos amigos, muitos, muitos, muitos…: da “ilegalidade” à prisão
4. No dia 25 de Abril entrou uma onda de luz e as pessoas saíram para a rua
5. Biografias dos entrevistados
Cronologia
 
Este DVD encontra-se disponível nas bibliotecas e centros de documentação das escolas do Concelho e também está disponível nas bibliotecas municipais, através da Pesquisa nos Catálogos.

 

23 agosto, 2014

Brasil, nação filha. Brasileiro, povo irmão... Práticas semelhantes de manipulação... (2)

(extrato, se quiser ver tudo, ver aqui)

Nesta entrevista, a cada 30 segundos de fala de Dilma, acontece uma interrupção dos entrevistadores - Na Globo, no passado dia 18, à noite no Jornal Nacional, a presidente Dilma foi interrompida 21 vezes por William Bonner e Patrícia Poeta. Considerando que os jornalistas falaram por um terço dos 15 minutos e 47 segundos de entrevista (5 minutos e 42 segundos, para ser mais exato), Dilma foi interrompida em média duas vezes por minuto. Não é muito, cá nem falaria... (nas eleições europeias as TVs fecharam a loja!) 

Outra:
Julgam que este vídeo passou? Passar, passou... Passou na TV do Instituto Lula... cacei-o no Portal Vermelho!
Ei, meu irmãos brasileiros, vocês acham que Dilma e Lula passam  aqui? Se passam, eu nunca vi. 



22 agosto, 2014

Ir à Festa, aquela que não há outra como esta! (1)


Há uns anos, em 1977, quando deitámos ombros à tarefa de quase comer ervas e pedras e, num terreno que era mais que mato, orgulhosamente a erguemos, dizia a tal imprensa: "os comunistas vão-se enterrar no Jamor, não vão fazer a Festa". Por inícios de Agosto, um jornal (já não me recordo qual) ostentava uma foto como prova do tal inconseguimento. Foto semelhante à que agora mostro, tirada em meados de Julho. Hoje pensarão o mesmo, mas já não arriscam a afirmá-lo. Limitam-se a esconder esse trabalho sem par, voluntário e num ambiente fraterno que, se fosse divulgado, arriscaria a trazer ao Partido mais e mais simpatia, mais e mais militantes, mais e mais crença que os comunistas são uma força indispensável para "afastar os fantasmas" e construir um país novo tendo por modelo a "cidade-de-todos-os-afectos". 
E por falar em afastar fantasmas, ocorreu-me partilhar uma canção do Pedro (que em 2010, deu, na Festa, um concerto extraordinário) pela letra, pelo vídeo que a suporta e porque, arrasta uma outra interpretação que, nesta hora, tem lá a mesma importância que tem para nós, agora:
Aquele era o tempo
Em que as mãos se fechavam
E nas noites brilhantes as palavras voavam,
E eu via que o céu me nascia dos dedos
E a ursa maior eram ferros acesos.
Marinheiros perdidos em portos distantes,
Em bares escondidos,
Em sonhos gigantes.
E a cidade vazia,
Da cor do asfalto,
E alguém me pedia que cantasse mais alto.
Quem me leva os meus fantasmas?
Quem me salva desta espada?
Quem me diz onde é a estrada?

21 agosto, 2014

Brasil, nação filha. Brasileiro, povo irmão... Práticas semelhantes de manipulação...

Titulo repetido de um post muito antigo, este

Em dias consecutivos (18 e 19 de Agosto) o DN dedicou a Marina Silva dois artigos. Num deles com chamada de primeira página e onde, sob uma foto sorridente, uma legenda destacava: "Marina, a mulher que veio assombrar o favoritismo de Dilma". O adjectivo seria mais adequado a outra assombração, a da manipulação da imprensa a impor, em clima de dor, uma cara.
Tal manipulação não é, cá e lá, coisa rara. 
Cá a nossa imprensa é useira e vezeira em impor quem quiser impor. Lá, ainda o corpo não tinha entrado na "câmara ardente" e já a "Folha de São Paulo" publicava uma sondagem. Paulo Henrique Amorim, do "Conversa Afiada" (meu blogue-pai) chamou-lhe abutre, pois a pesquisa foi realizada ainda durante a recuperação do corpo de Eduardo Campos, no local do acidente... sordidez indecente!

Sordidez indecente é (também) ver Marina debruçada na urna... sorridente. Isso o DN não mostrou!


20 agosto, 2014

48 anos de degustação (o segredo está no palato)

... no ano passado foi feriado nacional
as lágrimas sabem a sal
nem sempre sabem mal
os beijos a rebuçados
uns mel outros frutados
e o amor
seja lá isso o que for
mantém o mesmo sabor

a ternura tem um travo
agridoce
suave  suave  suave
até que passe
ou volte a acontecer

o prazer
o sabor que tiver que ser

a discussão
quando acre é posta de parte

se tem sido perfeito o entendimento?
quase sempre
dependendo do momento e do estado
em que se encontra o palato
Rogério Pereira

Ah! uma recomendação: não procure néctares dos deuses, use sabores caseiros e faça, de quando em quando, uma agridoce surpresa (mesmo sem ser sobremesa)


19 agosto, 2014

Em Dia Mundial da Fotografia, a minha galeria...

A LUZ E O MOVIMENTO: Daniel Rodrigues, Sebastião Salgado e Eduardo Gageiro
CLASSES, A CORES: Rui Pascoal, José Ferreira e Hugo Macedo
NAUFRÁGIOS: Fernando Santos (Chana)




As galerias são mais que repositórios de quadros, de fotos e outras formas de arte. Esta minha é de fotos, expondo todos os meus mestres, que mostram para lá do que se vê e me ensinam a ver. Essa a sua maestria: mostrar a paisagem humana, que é (continua a ser) a paisagem do valer a esperança, do valer viver, do valer valer.

Nada de retratos, esses, tiro eu!

- a última foto tem um valor especial
adivinhem qual! -
NOTA:  O espaço e os títulos agrupados são da exclusiva responsabilidade desta galeria 

FEZ NA SEMANA PASSADA 5 ANOS E CHAMA-SE DIOGO: Luis Azevedo


Casa cheia e uma lua enorme, que mais pode alegrar um homem?



As tais férias que passaram depressa (Curral da Pedra/Stª Catarina do Bispo)
- reportagem fotográfica no outro lado

18 agosto, 2014

Rentrée do "Conversa" depois de umas férias que passaram depressa


"Toda a tristeza é reaccionária; todo o pessimismo é retrógrado"! Por aqui (re)começo, pois não há melhor citação a condizer com o que me vai na alma, no juízo e no coração. Passei sete dias a pensar nisso. Nisso e na teimosia em regressar à escrita avinagrando a tristeza e o pessimismo.
Há quem se entristeça  e não reaja. Há quem cuide, por pessimismo, que o mundo passa por uma desgraça, que o País foi evadido por criaturas cretinas que tomaram conta dos nossos destinos e que, a estas, se sucederão outras ameaças cada vez menos humanas até que da humanidade nada mais reste que uma longa marcha de acontecimentos funestos. Há riscos disso, se prevalecer esse crer.

08 agosto, 2014

Gaza: é mesmo isto que que se passa (hoje deveria postar algo sobre o ensino de empreendedorismo a um menino, mas não consigo)



Entrei na ampla sala mas mal entrámos porque não precisámos. Logo ao pé da porta estava um posto equipado: uma mesa com a anatomia necessária, um funcionário e um computador de plasma de grandes dimensões. Olhei toda a sala depois. Era igual. Mais de uma dezena de postos assim. O Director de Operações explicou-me detalhadamente as funções, as tarefas, os processos em conformidade com a tecnologia à vista. "Quando o autocarro se atrasa, olhe este aqui está já fora do horário" - dizia apontando a espinha da carreira, a luz vermelha a piscar - "este operador procura, com aquele rato, as paragens seguintes a verificar se há aglomeração de pessoas em espera, quer ver?" E disse ao operador para o fazer. "Não está muita gente! Se estivesse ele daqui accionava um desdobramento para o chefe da estação, que para esta carreira seria Cabo Ruivo". Mal refeito do espanto (em 2001, ainda não conhecia o google earth) lá fui colocando as perguntas que me vinham à mente mesmo se a resposta pelo que via era evidente: se era em tempo real, se a imagem se podia aproximar ainda mais, se e se e se. A tudo me ia dizendo que sim, mas deixando o comentário "o uso disso é raro, pois é dispensável e caro". Terminada a visita, não deixava de pensar nos efeitos impressionantes daquela tecnologia em uso militar. Tantos anos depois a resposta está aí. Todos os dias (e também nesse vídeo)!
Visita realizada em 2001 à Sala de Controlo de Tráfego, da Carris, na Estação de Santo Amaro

Poesia (uma por dia) - 70


Neste espaço, um dia, limpei tudo o que à volta havia. Vídeos, gifts, selos, outros mimos e desvelos. O acesso ao meu espaço estava bloqueado, pesado, e as queixas sucediam-se. "não consigo entrar", diziam. Limpei mas não deitei fora. Estão guardados no baú das memórias e, por isso dispersos. A partir de hoje, coloco-os no espaço central e junto-lhe versos.
Vê se gostas, Janita
AMIGO APRENDIZ

Quero ser teu amigo,
Nem demais e nem de menos...
Nem tão longe e nem tão perto.
Na medida mais precisa que eu puder.
Mas amar-te como próximo, sem medida...
E ficar sempre em tua vida
Da maneira mais discreta que eu souber.
Sem tirar-te a liberdade,
Sem jamais te sufocar,
Sem forçar a tua vontade.
Sem falar quando for a hora de calar.
E sem calar quando for a hora de falar.
Nem ausente nem presente por demais...
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amigo, mas confesso:
É tão difícil aprender...
Por isso, eu te peço paciência.
Vou encher este teu rosto
De alegrias, lembranças...
Dê-me tempo
De acertar nossas distâncias!
Fernando Pessoa

07 agosto, 2014

Será a quadrilha quem escolhe o policia?


O sistema financeiro é um quebra-cabeças embora não se veja ninguém de cabeça partida e todos parecem gozar boa vida: os banqueiros, os grandes accionistas, os reguladores, os supervisores e o próprio Governo. A teia enleia e dela mal se percebem os contornos. Mas então, se não há respostas formulemos perguntas. Esqueçamos, por momentos, que perguntas sobre o que se passou no BCP, no BPN, BPP ficaram e permanecem sem respostas... Mas agora, sobre o BES, leiam-se dez. Apenas dez: in "grande farra" (que nunca mais acaba)!

Ah, aproveitando a embalagem, aqui ficam um monte delas:
«E a Caixa? Quando é que a Justiça decidirá ser oportuno cumprir o seu dever de tratar das irregularidades denunciadas há séculos? Quando é que teremos a "surpresa" de "descobrir" na Imprensa que "surpreendentemente" os gestores da CGD favoreciam amigos em prejuízo das contas do banco público? Quem irá preso no caso CGD? Quem? Quantos? Porquê? Como? Onde? Quando?»
Editado pelo "Perguntas inOfensivas" 
Mas não se pense que foram estas apenas as perguntas... Vejam só:



06 agosto, 2014

«O empreendedorismo refere-se a uma capacidade individual para colocar as ideias em prática. Requer criatividade, inovação e o assumir de riscos, bem como a capacidade para planear e gerir projectos com vista a atingir determinados objectivos.»

Comissão Europeia – Educação e Cultura, 2005 

A criança que se desenvolva em ambiente normal manifesta, cedo, criatividade. Gosta de jogos de faz de conta, troca nada por coisa nenhuma, e até acha graça. Se apanhar qualquer um a andar de bicicleta, mande-o parar, fingindo ser policia, peça a documentação, a carta de condução. Primeiro, reage com espanto, depois é muito provável que finja procurar no bolsito o que lhe tenha pedido, e depois lhe estenda nada, que você terá que receber. Finja o que faz qualquer policia. Depois passe-lhe uma multa, sem lhe passar coisa nenhuma. Ele a receberá esse nada, com um sorriso. Gosta disso. Se esta brincadeira não resultar, experimente outra, ele reconhece o estilo e pega logo. 
Faço isso com o meu neto... que é esperto. E por vezes é ele que toma a iniciativa e a lidera. Os jogos colectivos são um castigo, quer impor regras estranhas e ganhar sempre. Ele faz para a semana cinco anitos e contamos com a escola para desenvolver a socialização, o ser cooperativo, o respeito pelo outro e aprender a ser menos maroto...

Por isso ao ler o lido fico lívido. A escola prepara-se, com a orientação de Bruxelas, para lhe desenvolver o eu, eu, eu...

in"Guião de Educação para o Empreendedorismo"
Palavra que não quero que regresse ao comportamento implícito nisso. Nisso e neste pensamento:
« Todos os seres humanos são empreendedores. Quando estávamos nas cavernas, éramos trabalhadores por conta própria…a encontrar comida, a alimentarmo-nos. Foi aí que começou a história humana. Com o advento da civilização suprimimo-lo porque nos rotularam: “és um trabalhador”. Esquecemo-nos de que somos empreendedores.»
Muhammad Yunus, Prémio Nobel da Paz
As cavernas, as modernas como as antigas, são frias. São frias, inóspitas e incómodas, nada comparáveis aos condomínios fechados de quem não tem a pobreza no seu ADN mas que educa os filhos para gerirem bem todos os tipos de empreendedorismos. É que a selva precisa de regras...

05 agosto, 2014

Alvaro Siza Vieira doou um espólio de uma vida inteira


Enquanto o vespeiro do dinheiro continua em convulsão, enquanto em torno do banco bom se voltam a reunir os maus e à volta do banco mau padecem os trafulhas e incautos, decido editar Siza. 
Por pena minha, não tenho uma etiqueta para registar "interregnos para gestos dignos". Em vez de "gesto digno" fica em "coisas belas". Não fica mal. É que doar um espólio de uma vida inteira não é brincadeira (doar, e não depositar, como insinua o jornalista) e é um gesto belo.

Porquê isto? Ora, por uma data de coisas (ver vídeo abaixo) e onde a entrevista que Siza deu ao Público é um mero pretexto. 



02 agosto, 2014

Empreendedorismo, a doença senil do capitalismo*

* o título é réplica a um outro texto, que deve ser lido

Projecto de empreendedorismo na Escola Básica Integrada Padre Vítor Melícias (ver aqui)

Quando no post anterior me interrogava sobre se as escolas das nossas crianças se estariam transformando em sítios de "fabricar" amorins e belmiros, estava longe de supor que estavam mesmo. E não foram apenas as palavras de Cavaco a darem-me o alerta ("É dessa forma que nós vamos conseguir renovar a classe empresarial portuguesa"), foi depois a pesquisa feita. Andei de um para outro lado e fiquei assustado pois, sobre o tema, são muitos os que se "fecham em copas", mas lá dei com o texto do "5 dias" e com um outro. Este é uma dissertação de mestrado que, na sua parte final, conclui:
 (...) 
Investigar a cultura do empreendedorismo, que invade o espaço educacional e as possibilidades de aproximação com metodologias educativas voltadas aos processos de autonomia, foi o foco desta dissertação. (...) Existem aspectos da concepção do empreendedorismo que vem reforçar princípios pouco sociais que representam uma cilada do individualismo e são expressas sob o ideário neoliberal e que sustentam novas orientações do capital agenciando a educação.
No discurso do empreendedorismo, o empreendedor é o motor da economia, um agente de transformação, dentro e fora das organizações. É o indivíduo adequado para a competitividade, ajustado ao novo regime de acumulação capitalista, portador de qualidades como flexibilidade, independência, inovação, aquele que assume riscos e busca realizar seus sonhos de ascensão e mobilidade social. Com este conjunto de argumentações, o discurso empreendedor movimenta-se à procura de adesão às suas orientações, sob a premissa de que o trabalhador deve converter-se em empreendedor, a fim de enfrentar as novas a fim de enfrentar as novas demandas laborais do mundo globalizado e a complexa situação de desemprego.
De acordo com a proposta empreendedora, os que vivem do trabalho poderão garantir a sua posição em um mercado competitivo libertando-se das limitações do paradigma tradicional do trabalho formal. Cabe ressaltar que suas proposições destinam-se a todo e qualquer personagem presente no mundo do mercado, e ultimamente direcionado aos espaços educativos. O discurso empreendedor sustenta-se na perspectiva neoliberal de que a saída para a desocupação e o desemprego está no micro empreendimento e, em decorrência, na preparação e educação dos jovens para assumirem a condição de potenciais e futuros empreendedores"

(...)
A educação empreendedora nos moldes como se estrutura atualmente direciona o estudante para aderir os princípios da economia, sem uma visão critica e autônoma. A educação empreendedora disciplinariza e normatiza um tipo de comportamento: o você S.A."
(...)
O que se vê são estratégias de se repassar aos estudantes a necessidade de desenvolver em si mesmo os ―sonhos possíveis‖, independente dos cenários e das responsabilidades de políticas públicas que suportem o agir empreendedor.
No campo socioeconômico, essa crise explicita-se: na hegemonia do capital especulativo, fruto da expansão e intensificação do processo de internacionalização do capital; no desemprego estrutural, resultado do processo de reestruturação produtiva e da implementação de políticas de desregulamentação do mercado de trabalho; e no monopólio científico-tecnológico obtido pelas economias centrais capitalistas e corporações transnacionais. No campo ético-político, a crise se expressa na naturalização da exclusão e no apelo ao individualismo. Esses fatores implicaram em uma crescente concentração do capital e um crescimento sem precedentes da exclusão social na ordem mundial, gerando, como indica Sennet (2008), a corrosão do caráter.
É possível sintetizar o movimento do mercado em duas palavras: competitividade e flexibilização. Para elas voltam-se todos os esforços de indivíduos, sociedades, Estados e governos, especialmente dos que se inscrevem na periferia do capitalismo mundial, fundamentando como indica Ehrenberg (2010), o novo culto da performance. Este ideário neoliberal do ponto de vista, por exemplo, dos organismos internacionais de educação é reforçado pela abordagem empreendedora marcada pela competitividade.
A economia deve ser supostamente regida pelas leis do mercado. O Estado tem de ser mínimo na regulação do capital e na defesa das instituições e dos bens públicos, mas interventor quando cuida dos interesses do capital, como na qualificação da mão-de-obra, na flexibilização e desregulamentação do mercado de trabalho, na defesa das patentes estrangeiras e na sustentação do mercado financeiro. O Estado deve atuar, ainda, como ―parceiro‖ das grandes corporações internacionais, estabelecendo vantagens comparativas em relação a outros países, a exemplo dos incentivos fiscais e financiamentos, para atrair o capital produtivo externo, como se nota nas grandes concentrações de mão-de-obra mundiais.
Novos métodos e técnicas de organização e gestão do processo produtivo, associados à desregulamentação do mercado de trabalho resultaram em uma drástica redução nos níveis de emprego e em constantes tensões nas relações de trabalho, fruto da intensidade com a qual o trabalhador é explorado, da ameaça constante que sofre de perda do emprego, da terceirização, de seu trabalho, além do aumento de trabalhadores não integrados ao sistema produtivo.
O discurso do empreendedorismo propõe-se a ser a solução para que Estados e trabalhadores ajustem-se às exigências de competitividade da globalização econômica. Apresenta-se como indutor da prosperidade econômica, como motor do desenvolvimento econômico e como alternativa ao desemprego.

(...)

01 agosto, 2014

Empreendedorismo: as escolas das nossas crianças tranformaram-se em sítios de "fabricar" amorins e belmiros?


Quando há tempos escrevi sobre empreendedorismo considerei-o moda, e dizia: "A moda vem e passa. Mas enquanto não passa, a moda faz mossa. E a mossa que deixa é uma mossa composta: composta de duas violentas mazelas", e falei delas. No fim escrevia: "A moda do empreendedorismo nasce de mãos dadas com o neoliberalismo, ambos se fundamentam no mito que o valor do homem apenas está no «valor que o "mercado" lhe dá». Assim, não espanta que Cavaco Silva elogie tal receita e afirme a sua importância e relevância e que Bruxelas a financie e também a elogie.

Hoje, ao abrir o DN, dei com a publicidade ao projecto "EmpCriança". Uma página inteira. Só pensei: "Vai ser muito difícil sair desta selva" e recordei o comentário a um outro texto:
Tem razão a Lídia, mas é forte a motivação quanto tocam hinos de todos poderem vir a ser amorins e belmiros, ainda que a maior parte nem chegue a ter... pão para comer. E o pior, é que se sentirão culpados.