02 abril, 2017

A tradição viva e um (outro) belo conto de Amadou Hampaté Bâ

"A escrita é uma coisa, e o saber, outra. A escrita é a fotografia do saber, mas não o saber em si. O saber é a luz que existe no homem. A herança de tudo aquilo que nossos ancestrais vieram a conhecer e que se encontra latente em tudo o que nos transmitiram, assim como o baobá já existe em potencial em sua semente."
Baobá
 Sabem os que me conhecem e também os que me seguem que quando encontro um filão não o largo. "Conheci" Amadou Hampaté Bâ há pouco e não lhe perco um conto.

E este é lindo

«A briga das duas lagartixas»

Nos tempos em que as criaturas da terra ainda se compreendiam entre si, um abastado chefe de família vivia num pequeno vilarejo, no seio de uma terra fértil. Sua velha mãe estava ainda perto dele.
No vasto recinto familiar, cercado pelas casas dos diferentes membros da família, vários animais, dentre os quais um cachorro, um galo, um bode, um boi e um cavalo, deambulavam em liberdade.

Um dia, num vilarejo situado a cerca de dois dias de caminhada, um ancião, reputado por sua sabedoria, veio a morrer. O chefe de família viu-se obrigado a se ausentar para ir ao funeral, em companhia de alguns outros habitantes do vilarejo. “Eu me sinto muito cansada,” disse-lhe sua velha mãe, “volte o mais rápido possível”.
– Fique tranquila, mãe, não vou demorar. Em cinco ou seis dias, no máximo, estarei de volta.
Sua mãe lhe deu sua bênção para a viagem e foi então estirar-se em sua casa.

No momento de partir, o chefe de família chamou o cachorro: “Cachorro!”, disse, “Durante minha ausência você será o guardião da casa. Fique aqui, na entrada do recinto. Vigie tudo que se passa dentro ou fora, e em caso algum deixe seu posto! Se algum incidente
acontecer no interior, que o galo, o bode, o boi ou o cavalo se ocupem e coloquem ordem, se preciso. Você me entendeu bem?”. – Sim, mestre! – disse o cachorro. E juntando o gesto à palavra, balançou o rabo e mostrou sua cabeça para ser acariciada. O mestre bateu gentilmente no seu crânio e então, tranquilizado, partiu para se juntar aos seus companheiros de estrada.

Dois dias após sua partida, numa manhã bem cedinho, quando os primeiros raios do sol mal começavam a dourar o topo das casas, o cachorro ouviu um barulho estranho que parecia vir da casa da velha mãe. Esta, ao abrigo de um mosquiteiro, repousava ainda. Uma lâmpada de azeite queimava suavemente a seu lado.

O galo da casa estava ciscando exactamente na frente da casa da velha senhora, à procura de alguns grãos de milhete caídos do pilão.
“Galo! Galo!”, chamou o cachorro. – O que você quer de mim, cachorro? – Que barulho é esse que parece vir da casa onde descansa a mãe do mestre? – São duas lagartixas brigando, penduradas no tecto da casa. Já tem um bom tempo que disputam pelo cadáver de uma mosca morta. – Por favor, galo, vá pedir a elas que parem de brigar. E se elas não quiserem saber de nada, obrigue-as a se separarem. – Como, cachorro?! – Indignou - se o galo, com a crista trémula – Você me pede a mim, rei da granja, encarregado de anunciar a cada manhã a aparição do sol, para me ir ocupar de uma briga de lagartixas? – A mãe de nosso mestre está doente, – insistiu o cachorro – O barulho que as lagartixas estão fazendo pode incomodá-la. E também, não existe pequena briga, assim como não existe pequeno incêndio. Ninguém sabe no que pode resultar... – Vá então separá-los você mesmo! – Não posso. O mestre ordenou que eu não saísse deste lugar... – Então, se vira! Não é problema meu. Aliás, quem se preocupa com uma briga de lagartixas! – e empinando as longas plumas de sua cauda, o galo recomeçou a ciscar aqui e lá.

O bode, barbudo como um patriarca, veio passar por ali: “Bode! Bode!”, Chamou o cachorro. – O que você quer de mim? – Disse o bode. – Você poderia ir separar as duas lagartixas que estão brigando na casa de nossa dona? Não existe pequena briga... –
Quem você acha que eu sou? – Baliu o bode – É mesmo a mim que você se dirige, eu, o incontestável mestre de toda uma linhagem de cabras, quando o próprio galo não
quis se ocupar desse negócio? Se essa briga te incomoda, por que você mesmo não se ocupa dele? – Eu recebi ordem do mestre de não deixar a porta durante toda a ausência dele. – Então, fique na porta, deixe a gente em paz, e deixe as lagartixas com a briga delas! O máximo que pode acontecer com elas, é caírem e lascarem a cabeça no chão, e vai ser bem feito para elas! Jamais uma guerra de lagartixas prejudicou alguém... Uma briga de lagartixas, faça-me o favor! – e levantando com desdém sua barbicha, o bode se afastou...
Entrementes, as duas lagartixas continuavam a se emaranhar, a se mordiscar, a se dar patadas e lançar furiosos escarros.
Inquieto, o cachorro chamou o boi, que ruminava tranquilamente num canto do pátio: “Boi! Boi!” – O que você quer de mim? – Mugiu o boi, sem dúvida interrompido no meio de algum sonho agradável. – Duas lagartixas estão brigando na casa de nossa dona. Você poderia ir separá-las? Nenhuma briga é pequena. Ninguém sabe no que pode resultar... – Uma briga de lagartixas! – Gargalhou o boi – Você quer que eu, boi, o mais forte e mais antigo dos animais dessa casa, me ocupe de uma briga de lagartixas? Mais nenhuma palavra, cachorro! Ou de uma só vez meus chifres afiados vão perfurar seu ventre! O cachorro baixou as orelhas e se calou. As lagartixas, escarrando mais ainda, continuavam a brigar furiosamente.

Vendo passar o cavalo o cachorro fez uma última tentativa: “Cavalo! Cavalo!”. – O que foi, cachorro? – Você poderia ir separar as duas lagartixas que estão brigando por uma mosca morta na casa da velha mãe? Como você sabe, não existe pequena briga... – Realmente, cachorro, – relinchou o cavalo – você tem uma péssima opinião a meu respeito! Quando o galo, o bode e o boi se recusaram a se ocuparem desse negócio ridículo, você quer que seja eu, o mais nobre dos animais, um puro-sangue consagrado unicamente à corrida, que vá me ocupar disso? O que você acha que me causa a mim, uma briga de lagartixas por uma mosca morta! Vá então você mesmo se ocupar disso! – Eu não posso, – disse o cachorro – recebi ordem de não abandonar meu posto. – Então, fique aí e deixe a gente em paz! Jamais uma guerra de lagartixas incomodou alguém – e sacudindo a crina, por sua vez, o cavalo se afastou.

Desamparado, não sabendo mais o que fazer, o cachorro se calou. Com as orelhas baixas, o focinho sobre as patas dianteiras, olhava tristemente o pátio onde cada um vagava, passeava ou repousava sem se preocupar com nada.

Mas eis que nossas duas lagartixas, de tanto se contorcerem, se despregam do tecto e vêm cair sobre a lâmpada de azeite. O pavio aceso sai da lâmpada, toca o mosquiteiro, o mosquiteiro pega fogo, e logo a cama está em chamas.

A velha mãe chama por socorro... Gritos aumentam por todo o recinto... Correm, libertam a pobre mulher, e de tanto jogar cabaças cheias de água sobre a cama, conseguem apagar o fogo. Infelizmente, a pobre velha está gravemente queimada. Ela respira ainda, mas sua vida está por um fio. O curandeiro do vilarejo é chamado depressa. Examina a doente, acena com a cabeça...

“Temos que cobrir as queimaduras com sangue de frango”, disse. “Encontrem um, vou sacrificá-lo e pronunciar sobre ele as palavras do ritual. Em seguida, façam um caldo com seus restos e tentem fazer a doente beber”. – Tem precisamente um galo no pátio! – Exclama alguém.

Precipitam, dão caça ao galo que corre em todas as direcções, batendo asas e grasnando de protesto. Perda de tempo! Logo um homem o agarra, pega-o pelas patas e leva-o para fora para ser sacrificado.
Quando passa diante do cachorro, pendurado pelas patas e com a cabeça balançando, com a voz bem rouca de tanto gritar, o galo geme: “Ah, cachorro! Se pelo menos eu me tivesse ocupado dessa briga de lagartixas! Eis que hoje vou deixar minha vida em troca!”. – Pois é! – Diz o cachorro – Eu bem que te disse que não existe pequena briga. Se você me tivesse escutado, não estaria nesse ponto agora.
Após o sacrifício do galo, cobrem as queimaduras da doente com o sangue recolhido, e então preparam um bom caldo de frango. Alguém vai jogar os ossos ao cachorro. “Pobre galo!”, Diz este. “Se você tivesse aceitado usar sua autoridade para parar essa briga, não me dariam hoje teus ossos como refeição...

Mas antes mesmo de ter podido engolir um gole de caldo, a velha mãe, muito gravemente atingida, dá seu último suspiro. Enquanto todos se lamentam na casa, um homem vai buscar o cavalo puro - sangue, o arreia e monta nele um moço habituado com corridas de cavalos. Ele lhe estende um chicote. “Rápido!”, diz. “Corra até o vilarejo onde se encontra o chefe de família, anuncie o falecimento de sua mãe e traga-o imediatamente. Somente ele pode se ocupar do funeral”.

O moço, orgulhoso de montar um puro-sangue, pula de um salto em seu lombo, dá uma chicotada e, soltando um grito, o faz partir como uma flecha. Durante horas ele o faz galopar, galopar, galopar... Com tantos gritos, chicotadas, botinadas, pressiona - o tanto que o pobre cavalo, arfando, a espuma escorrendo das mandíbulas, chega ao vilarejo vizinho no fim da manhã, quando o sol se encontra exactamente bem acima de seus crânios. O menino entrevê o chefe de família no meio dos homens reunidos e vai anunciar o drama.

Atordoado, este último tem apenas uma ideia em mente: ir para casa sem perder um instante a fim de prestar à sua mãe os últimos favores que lhe deve. Sem se preocupar em procurar uma montaria mais fresca, salta no lombo do puro-sangue ainda coberto de suor, pega o menino na garupa e com grandes chicotadas, lança por sua vez o cavalo no caminho do vilarejo.

Pobre puro-sangue, que se considerava nobre demais para se ocupar com uma vulgar história de lagartixas!... Nunca antes fora submetido a tal prova! Surrado, esporeado, com uma dupla carga no lombo, ei-lo forçado a refazer em grande galope a longa estrada que já tinha percorrido pela manhã com tanta dificuldade. Coberto de espuma, com os flancos sangrando, os olhos fora de órbita, aproximadamente no fim da tarde, chega enfim diante do recinto familiar. O mestre e o menino saltam por terra e se juntam aos membros da família.

Quanto ao pobre cavalo, com os pulmões em fogo, cuspindo uma espuma avermelhada, ele dá ainda alguns passos. Aí, coração no fim, ele se desmancha ao lado do cachorro.
Como se diz na África, “seu coração explodiu”. Antes de expirar, ele encontra ainda força para dizer num último sopro: “Ah, cachorro! Se pelo menos eu tivesse escutado seu conselho, não deixaria minha vida hoje por essa briga de lagartixas! – Pois é, meu amigo! – Suspira o cachorro – Eis as tristes consequências de uma “pequena briga”!
Entrementes, o chefe de família, após se recolher junto ao corpo de sua mãe, ordena a escavação da tumba. Ora, segundo o costume do vilarejo, antes de enterrar um defunto, é necessário primeiro “abrir” ritualmente a tumba, nela derramando sangue de bode. A carne do animal serve em seguida para alimentar os visitantes que vieram apresentar suas condolências.

Imediatamente, dois homens agarram o bode que, sem desconfiar, descansava no pátio. Eles o puxam pelos cornos em direcção ao local dos sacrifícios. Passando diante do cachorro, o bode baliu tristemente: “Oh, cachorro! Como você tinha razão! Se pelo menos eu tivesse me ocupado dessa briga de lagartixas, hoje não me sacrificariam! – Pois é, meu amigo! – responde o cachorro – Se você tivesse se dado o trabalho de parar essa briguinha, hoje você teria a vida salva! Tendo o bode sido degolado, um ancião recolhe seu sangue e vai  “abrir” ritualmente a tumba da velha mãe. Esta é por fim enterrada segundo as regras, com todas as honras, devidas à sua posição e idade. Assam o resto da carne para alimentar os visitantes e levam ao cachorro uma boa porção de carne e ossos...

Quarenta dias após o falecimento, momento em que a alma dos defuntos, como se sabe, se liberta dos últimos laços que a prendem ainda ao mundo terrestre, pessoas chegam de todos os vilarejos vizinhos para participar da grande cerimónia do “quadragésimo dia”. Para alimentar toda essa gente, o chefe de família é obrigado a sacrificar o boi. Antes de morrer, este diz ao cachorro: “Ah, cachorro! Se pelo menos eu tivesse aceitado me ocupar dessa briga de lagartixas!”. Cheio de piedade, o cachorro dá um longo suspiro. Mas quando, um pouco mais tarde, trazem a ele uma enorme porção de ossos e pedaços de carne, ele os devora sem cerimónia...

Assim, por causa da batalha das duas lagartixinhas por uma mosca morta, modesta briga da qual ninguém quis se ocupar, não apenas nossos orgulhosos amigos galo, bode, boi e cavalo deixaram a vida, mas resultou num incêndio e numa morte que deixou em luto toda a família... Somente o cachorro, fiel a seu dever, saiu ileso desse tormento, e até encontrou nela uma recompensa inesperada…
Tradução de Mayara Matsu Marinho, 

9 comentários:

  1. Muito bom. Adorei. Obrigado pela partilha.
    Um abraço e uma boa semana

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  2. Li todo o conto colectado da oralidade por Amadou Hampâté Bâ. Este trabalho de colher contos tradicionais que vingaram pela oralidade de geração em geração, parece-me muitíssimo interessante.

    Abraço!

    Maria João

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    1. Se o fado é património imaterial da humanidade... que dizer dos contos de Amadou Hampâté Bâ? Que dizer dos contos e destas "relíquias", antes orais, agora escritas?

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    2. São frutos de um verdadeiro e cuidado trabalho de "arqueologia da palavra"...

      Estou de saída para novos exames, mas deixo outro abraço.

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  3. Eu também sou assim, quando gosto vou até ao fim :)

    Moral do conto:
    Não ligar a pequenas coisas pode ocasionar grandes tragédias.

    Um beijinho e boa semana






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  4. África tem muita História e
    muita Sabedoria.

    fraterno abraço

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    1. «O saber é a luz que existe no homem.»

      Nós os europeus estamos desprezando tanto do que nos faria tanta falta... a luz

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